uma mulher começa a escrever uma carta. seus destinatários são seus filhos, um menino e uma menina. ela precisa contar um segredo. ela precisa que seus filhos saibam por ela, por mais ninguém. anos atrás, quando o brasil ainda era uma promessa mundial. antes do rio de janeiro cair ladeira abaixo, antes do país se esvaziar de projetos sérios sob o único pretexto de prender políticos corruptos, antes do brasil ruir, antes de tudo ruir, seu corpo ruiu. era um dia qualquer em que compromissos foram remarcados e ela precisou correr na vista chinesa, no rio de janeiro, em um horário menos frequentado. era pra ser uma quebra pequena na sua rotina, nada apontava para um desastre. até que, então, um homem surgiu, a ameaçou com uma pistola, a levou para o meio da mata, e a estuprou. é essa a palavra.

vista chinesa, o novo livro da tatiana salem levy, é essa carta. é essa história, esse testemunho de uma mulher após vivenciar essa violência aguda, esse episódio de extremo horror. boa parte desse romance é a rememoração desse dia. ou dessas horas que transformaram tudo daí pra frente. a vida inteira dela. Júlia, a protagonista, não consegue se desvencilhar dos cheiros, do toque, das cenas rápidas, das coisas que passaram pelos seus olhos, pelo seu corpo, pelas suas roupas. são flashes que vêm e vão na narrativa, traduzidos muito bem numa escrita que às vezes tira o folego mesmo. são frases longas sem ponto final, com muitas vírgulas. outros parágrafos ainda sem vírgula. tudo muito cru, sem poupar palavra. inclusive, muito pelo contrário, chamando as coisas pelo exato nome que elas precisam ser chamadas porque é esse movimento de contar a história da forma mais detalhada que se é possível, utilizando as palavras certas, ou buscando desesperadamente a linguagem precisa que a protagonista acredita que poderá a salvar.

isso, desde o momento em que ela saiu de casa, até o momento que ela voltou, conseguiu chegar em casa, com as roupas rasgadas, uma joia de família a menos. o choro diante da família, do pai, da mãe, do marido, de uma amiga. o primeiro banho e a vontade de romper a pele, esfregar até que ela tenha outro corpo, que ela troque todo esse órgão, porque aquela pele já não a serve mais. aquele corpo inteiro não serve mais. ela se olha e só vê frangalhos, um corpo dilacerado, partido, fragmentado. aos poucos, ela vai ganhando a certeza de que está enlouquecendo, que jamais conseguirá recompor sua sanidade, sua paz, sua calma novamente. e é dessa dor, dessa incompreensão, que as palavras vão saindo. é como se a linguagem fosse a única saída que restasse pra essa mulher se desvencilhar de si, ou se desvencilhar dessa dor, dessa memoria.

na tentativa de colaborar com a polícia, ela tenta se lembrar de detalhes que ela percebe que vão escapando com facilidade. ela é acometida por um medo enorme de que seu depoimento condene um inocente, então ela começa a se emaranhar em lembranças bem especificas daquele dia, para tentar não ser arbitrária com a vida do outro. ela sempre se achou progressista, se colocou contra a pena de morte, o punitivismo, então pra protagonista é muito importante que a superação desse trauma não passe pela criação de mais violência – mas ao mesmo tempo, existe momentos em que a narração conduz ela a uma vingança imaginaria que logo é interrompida, mas é sensível.

outra questão que fica nessa relação com a polícia é sobre entender quem está sendo realmente ajudado. a polícia realmente está ajudando Júlia a obter justiça? prender esse homem, condenar, punir, isso eliminaria a dor, eliminaria a memória? ou esse processo inteiro está apenas gerando mais sofrimento?

a cada vez que a delegada pergunta algo novamente sobre o estupro, tudo volta na sua cabeça. o cheiro de jaca preenche qualquer cômodo. quando ela faz todos os exames e procedimentos e laudos, a maca se torna tão fria quanto o chão da floresta, ela sente outra forma de invasão. é a frieza da burocracia, do sistema, da desumanização. a cada vez que ela precisa encarar cinco desconhecidos numa sala de espelhos, para reconhecer quem foi o criminoso que a violentou, ela lembra daquele rosto específico que ela nunca mais viu novamente.

todas as cenas referentes a esse processo de criar o retrato falado e reconhecer criminosos na delegacia, inclusive, geram algumas das reflexões mais interessantes do livro, que apontam para noções estruturais da sociedade e referenciam como o machismo submete as mulheres como um todo a essa violência. chega um momento em que os traços se misturam, o nariz é qualquer nariz, a barba é qualquer barba, o formato da boca é qualquer formato… Júlia duvida de si mesma, da própria memória, todos os rostos masculinos se confundem, e todo rosto se torna o rosto do seu agressor.

do mesmo modo que aquele homem a retirou para longe do asfalto, Júlia vai se sentindo cada vez mais distante das paisagens em sua cabeça. se aquele homem a retirou do seu próprio corpo, como Júlia poderia confiar nas suas próprias lembranças? essas lembranças ainda são suas? é ela que controla a memória ou a memória que se decide sozinha o que deixará ou não vir à tona? o vista chinesa deixa bem evidente como um trauma muda uma visão de mundo para sempre, como o olhar da protagonista vai estar sempre determinado por aquele momento.

o livro, lógico, aponta também caminhos para a superação desse conflito. a relação da autora com o marido, como eles precisam reorganizar os caminhos para o sexo e a intimidade, construir outras percepções sobre aquele corpo que agora carrega marcas e cicatrizes, mesmo que já invisíveis. o processo de terapia, com sessões de análise que forçam Júlia a dar o primeiro passo, ou a primeira palavra. a pensar juntas, tirar conclusões juntas, ela e a analista. não vou falar muito, mas também existe uma cena relacionada a espiritualidade. outra cena sobre o ato de ser uma estrangeira. outra sobre usar máscaras. até mesmo olhar a paisagem, a cartografia desse rio de janeiro sede de olímpiadas, vai gerar processos de reconstrução da própria imagem para essa personagem que se viu tão deslocada quanto um cartão postal falsificado, obras superfaturadas para esconder os problemas diários, aquela maquiagem que a gente sabe fazer tão bem mas só de vez em quando.

mas, enfim, principalmente, a própria gravidez ajuda também. uma gravidez de gêmeos, um processo cirúrgico difícil, que força Júlia a olhar pro seu corpo de outra maneira porque todo mundo passa a enxergar de outra maneira também. agora, quando as pessoas a olham, elas já não veem o corpo de uma mulher destruída, elas veem o corpo de uma mulher que engravidou de dois bebês. o que é cruel, pode parecer um apagamento, mas também é verdadeiro. aquele corpo quebrado ainda consegue gerar vida e beleza. esse corpo fragmentado também é um corpo inteiro. ela só precisa ser carinhosa com ele e tudo que veio dele. o próprio fato de realizar este desafio ético, a escrita dessa carta, desse romance, é um gesto de cuidado e honestidade. o que é muito muito difícil mas também muito admirável quando se vive entre fraturas, entre violências, entre dores, entre pedaços de carne arrancados, água, lama, árvores reviradas, memórias, sirenes de bombeiro.

vista chinesa é isso.
uma floresta invadindo uma cidade.
a mata comendo o asfalto.
uma mulher devorando a própria história.