uma das imagens que eu mais gosto sobre a ana cristina cesar vem lá da infância dela. ela ainda com cinco, seis anos, passeando e pulando de um lado pro outro pela casa e ditando os poemas de cabeça pra mãe, que datilografava. depois, quando ela foi alfabetizada, ela começou a escrever seus poemas, desenhar as ilustrações dos próprios livros, juntar os papéis, grampear, inventando a própria editora, assinando prefácios com nomes falsos. Em uma delas, é possível ler o aviso “só leia se estiver com coração doce e puro”. 

o fato dela brincar com papel e caneta deixa evidente como desde o inicio ela entendeu que a literatura é um jogo, uma brincadeira. muita gente fala que a ana cristina cesar é uma escritora que se revela, se expõe, abre suas cartas, expõe seus diários, sua intimidade – isso talvez seja verdade em algum nível, mas a ana cristina cesar também entendeu rápido que poesia é fingimento, disfarce. que poesia também pode ser uma forma de ficção, um jeito de se ficcionalizar, inventar mascaras. 

Sua poesia era transpassada por um caráter bem intimista, mas cheio de falsidades. Ela subverte os estereótipos da literatura de autoria feminina – a gente sempre pressupõe que a literatura feminina é lugar de intimidade, pressupomos que um livro declarado como diário carregava mais verdade que outros gêneros, criando mentiras que se parecem diário e forjando verdades incômodas, principalmente relacionadas a erotismo e sexualidade. Ela foge do estereótipo da poeta romântica, e passa a falar de tesão, desejo, menstruação outros tabus. é sempre um feminino enérgico, um conflito do delicado com o sensual, entre o desejo e ironia. 

Ela narrava acontecimentos que nem sempre ocorreram, ou despistava o leitor adicionando muitas técnicas de escrita e seu estilo próprio para contá-los. 

sua escrita é profunda, metódica. seus rascunhos passavam muito tempo na gaveta, maturando antes de serem finalizados. O processo de revisão era longo e exaustivo, o que demonstra como essas falsidades eram premeditadas com cuidado. ela não se abria ao improviso e à casualidade. Essa fantasia de si mesma, exagerando vícios e características defeituosas, acaba nem sendo mentira, mas uma outra coisa que dói. 

Ana C. não existe. É uma poeta diferente pra cada pessoa que lê seus livros. 

eu adoro a ana cristina cesar, é uma das autoras que mais me inspiram, mais conversam comigo, apesar das distancias das nossas realidades. mas existem enigmas, imagens e sons na escrita dela que me instigam muito. é uma autora pra quem eu sempre gosto de voltar. sua obra completa, com todos os livros publicados em vida e alguns dispersos, está reunida num volume chamado Poética – que saiu em 2013 pela companhia das letras.