ele tem setenta e um anos quando consegue domar um lápis e, pela primeira vez, escreve seu nome: raimundo gaudêncio de freitas. demorou todo esse tempo para que ele tomasse coragem e conseguisse finalmente se alfabetizar. é lógico que teve vontade na infância, desde menino, mas o pai havia lhe proibido. disse que ler e escrever era coisa de menino que não precisava encher o próprio prato. em vez do papel e caneta, só ensinou ele a usar a foice, a enxada, ir para a lida todos os dias no pedaço de chão que um dia herdaria. se não tivesse um dia fugido. na juventude, fez aquilo que havia aprendido até então: arrancou as raízes.

é assim que começa “a palavra que resta”, romance de estreia de Stênio Gardel, publicado pela companhia das letras. o livro é um romance de formação não linear, que vai mostrar alguns pontos decisivos na vida desse protagonista que viveu no sertão, mas precisou abandonar tudo por causa da violência que sofria. num ritmo bonito onde uma memória desafunda outra mais velha ainda, uma palavra vai puxando a outra e deixa quem lê esquecendo do mundo. deixou o pai revolto, deixou a mãe conformada, deixou a irmã desolada. deixou tudo pra trás, menos uma carta, que se torna o objeto central da história toda. é ela a tal palavra que resta, a única coisa que sobrou de seu passado.

é em torno dessa figura, da palavra, que o livro vai se estruturando. em vários momentos essa imagem retorna: existem palavras que não podem ser faladas, que ficam mudas por toda a vida, apenas no pensamento do protagonista. coisas que enchem a cabeça mas impedem que se abra a boca. essa carta, num primeiro momento, é parte disso. são palavras que ele nunca pôde revelar, que significam dúvida, mas também pode ser um apelo, uma despedida, ou uma declaração de amor.

quem enviou essa carta pro protagonista foi cícero, um colega dele. eles se conheciam desde meninos, nascidos na mesma comunidade, mas aos dezessete os sentimentos de um pro outro mudaram a paisagem seca de poeira. e então tudo se faz chuva braço perna saliva língua boca fome vida. dois anos, até que são descobertos e aí começa uma série de episódios violentos, descritos com uma certa precisão gráfica. sangue, soco, desmaio, couro, desgosto, raiva, morte. a palavra que sobra é homofobia. foi ali que tudo começou a mudar, parecia que a surra tinha ferido mais dentro que fora. o que matava não era o cinto, mas o olhar do pai como se o filho fosse uma ofensa. é quando raimundo e cícero se desencontram num dia específico, fogem para lados opostos, e a única coisa que cícero deixa é essa carta que separa e liga a vida dos dois. que amedronta o protagonista por todo o livro.

raimundo não sabia ler, mas perto dele havia quem soubesse. ele poderia ter pedido alguém para revelar o que estava escrito na carta, mas a verdade é que ele não tinha essa coragem. durante boa parte da vida, teve medo de saber se ali havia um rompimento ou uma continuação. ler a carta seria saber o fim, o que teria sido aquele passado não vivido. de certa forma, é deixar de sonhar. então, caminhou com o envelope no bolso por cinquenta anos, como se houvesse uma pedra amarrada no calcanhar, acabando com o fôlego dele, fazendo o se afundar.

não conseguir encarar a carta é não conseguir encarar a si mesmo. ele foge de si mesmo na bebida, vivendo uma vida errante, de viagens por todo o país, trabalhando como caminhoneiro. ele aceita viver ali do único serviço pra onde a vida o conduziu: se torna um carregador, já que carregar o peso do mundo, carregar uma culpa que não é dele se tornou sua especialidade. longe da família, de cícero, de si mesmo, ele começa a narrar desencontros de uma espécie de vida dupla – entre a vida e a morte. fica impresso no seu nome o modo como ele se perde: ra-imundo. imundície. sujeira. para tentar se livrar do seu passado, ele se torna o homem violento que seu pai sempre desejou. vai caminhando e lidando com seu desejo de formas destrutivas, fazendo-se sofrer como se merecesse.

fica impresso aqui o limite de possibilidades que ele tem, como uma visão fechada sobre as realidades condiciona alguém a ser quem não se é. sem conhecer tantas palavras, como narrar as próprias experiências? não tem palavra que chegue, o jeito é catar as poucas palavras que tem e tentar se defender, se explicar. outra palavra chave do livro acaba sendo teimosia.

é resistindo e, aos poucos, lidando com outras personagens, que raimundo vai se tornando gaudêncio. denso, densidade. um nome com as cinco vogais, porque agora tem tudo em si. ele constrói novas oportunidades para ser quem se é, para viver de forma realmente livre. sente de novo o desejo e vai superando a própria masculinidade e construindo outras noções de casa, lealdade, família, comunidade, felicidade. o símbolo da alfabetização é fundamental nisso, porque mostra a poesia como uma palavra que diz muito mais do que fiz. as palavras se esticando, caminhando juntas, aumentando o horizonte da gente. e novamente sopros de sonho arrepiando a nuca e a realidade lambendo o desejo.

a palavra que resta é um livro triste. existem cenas muito pesadas, de sofrimento físico, mas também de pressão emocional, onde raimundo é agredido e onde ele é agressor. mas também é um livro sobre mudança, sobre como o lugar onde a gente nasce não pode determinar quem somos, nem de que maneiras vamos viver.