Você já parou para pensar quais fatores determinam sua experiência no mundo? Pergunto isso porque muitas das verdades supostamente incontestáveis são ficções que sustentam todo um sistema. A espécie humana é altamente influenciada pela cultura, assim, ilusões que povoam nossos imaginários por muito tempo parecem uma realidade imutável, algo natural.

Mas fomos colonizados pelos europeus e seu sistema de ideias nos foi imposto. É sobre sua valentia e seu espírito explorador que aprendemos nas escolas, nosso modo de viver é guiado pelo progresso e pela necessidade de lucro, ambos valores inventados por eles, que definiram o que era viver, quando a única vida valorizada era a do homem branco.

Não há nada de natural nisso.

Nascente, de Heleine Fernandes, é uma correnteza que nos impulsiona a dar braçadas para longe do mundo como o conhecemos e, enquanto nadamos rumo ao desconhecido, sentimos borbulhar em todo o corpo a energia da criação.

Seus poemas mostram a memória de antepassados que, vítimas da pilhagem europeia, sobreviveram e existiram para além do destino que tentaram lhes impor. As vozes evocadas nos versos são de corpos renascidos sob a diáspora, corpos cuja existência grita “é tudo mentira”. Sim, é tudo uma grande ficção. A História, com H maiúsculo, é invenção. É a mentira que sustenta esse mundo, onde uniformes vestem peles negras que são colocadas na linha de frente da tragédia, onde as balas são disparadas contra rostos solares, onde a casa-grande ainda impera.

A saída do mundo terrível, que não hesita ao aplicar toda sua violência sobre os corpos negros é elegbara. Exu puxa o tapete sob os nossos pés e nos joga para o vazio. Então olha para nossas caras assustadas e ri. Zomba de nossas limitações, de nossos anseios e nos convoca a abandoná-los, até tudo estar esculhambado. Nas ruínas de nossas ilusões, a possibilidade de construir tudo diferente desta vez.

Guiado pelas divindades, invocando objetos místicos e embalado por uma força que só pode vir da água, Nascente é, ao mesmo tempo, eco do futuro revolucionário e herança de histórias que borbulhavam no útero. É a literatura de cimento do avô, de letra insegura da avó, de mãe que não escreve e é a literatura da filha cujo dever é passar adiante as histórias que vibram em sua pele.