quem conhece leticia novaes, seja de sua banda antiga, seja de seu alter ego mais recente, sabe que ela é uma pessoa bem mística.

ela é capricórnio e tem muitos planetas no elemento terra. letrux é ilha.

é por isso que, ela justifica, busca tanto se conectar tanto com a água. é por isso que ela passou mais de 1300 dias da vida no mar. é por isso que ela ficou sentida na pandemia por não poder frequentar praias. é por isso que uma vez chorou quando passou de carro pela orla em vez de fincar os pés na areia. é por isso que ela escreveu esse livro.

tudo que já nadei é uma mistura de contos, crônicas, memórias, poemas, aforismos, diálogos – sempre relacionadas a água, mar e outros líquidos. são 160 páginas de verões atrapalhados pela chuva, pensamentos na hidromassagem, férias de infância, passeios de barco, casamentos em alto mar, sonhar ao mesmo tempo que todo mundo (porque a matéria do sonho com certeza é líquida), molhar o pé no raso, tomar caldo no profundo, morar de frente por mar, sentir a bexiga encher, os seis litros de sangue correndo dentro. todo corpo tem água.

outro líquido que flui por muitas páginas é a lágrima – a coisa mais próxima do mar que temos em nós. o livro já começa com uma memória muito triste porém muito bonita de uma pessoa que se foi. é uma história de perda, mas também é um jeito de deixar essa água nossa sair, dar um passeio, fluir. quem lê o livro já entende ali, nas primeiras páginas, que pra gostar do livro é preciso virar rio junto. tudo que já nadei abraça uma sinceridade em tratar de emoções. é tudo sensível e aberto, impressiona e provoca.

às vezes falta ar, e às vezes sobra.
respirar embaixo d’água tem dessas.

é um livro cheio de afetações, porque a autora é essa pessoa que se deixa sentir grande diante de cenas pequenas, corriqueiras, coincidências da vida que geram espanto, assombros, raios. ela sente e aí deságua.

letícia novaes não coloca máscara nenhuma – a não ser a máscara de mergulho. pra ir fundo, onde não dá pé.