nos últimos anos da sua vida, a avó de helena já não lembrava mais o nome da neta, que era o mesmo nome da sua irmã. suas lembranças eram vagas e ela não sabia mais em qual dia estava. seu corpo diminuía, e ela já não sabia mais quantos anos tinha. mas, uma coisa continuava igual nessa avó. ela ainda sabia tocar alguns hinos e sempre cantou uma música sem esquecer, a canção de laura habuki.

a libertação de laura, o novo livro da poeta helena zelic, é um livro sobre essa avó, seu processo de envelhecimento, algumas lembranças que a neta tem. mas também sobre como a memória, a lembrança é um grande mistério. ela vai partir dessa canção, da figura de laura habuki, uma figura que ela nunca viu, e uma música que ela ouviu apenas na voz da avó, para apresentar a sua própria família.

essa busca por essa música perdida parece ser uma busca por mais tempo ao lado dessa avó que agora se esvai, tem o corpo frágil, está perto do fim da vida. é uma decisão por manter parte dessa memória, desse arquivo, vivos. tentar recordar a avó por meio da poesia. é por isso que a busca aparece em helena zelic não só como tema, mas também como procedimento. existe essa narrativa em torno das pesquisas, das perguntas, de encontrar nomes em jornais antigos. nomes que pessoas diferentes falam com pronúncias diferentes, o que acaba gerando ruídos e fantasmas dentro dessa história. numa das investigações, a dorly falece naqueles meses, volta como dorlim numa nota de aniversário, e depois morre novamente num mês de janeiro. quem é quem, qual é a verdadeira identidade daquela pessoa saudosa, o que é ilusão, o que é recordação. o que pode ser passado de pessoa pra pessoa, de geração em geração, e o que não pode?

o livro começa com a avó, ainda viva, e termina um tempo depois da sua morte, com alguns poemas sobre o que fica depois. e aí a gente tem o pai da helena, imitando algumas feições da avó. isso não é uma receita, isso não é o idioma, isso não é a cor da pele, ou o tipo de nariz. existem coisas que ficam para além do controle, para além da genética, para além da decisão. e, por mais que se decida manter algo, essas coisas podem sublimar com muita facilidade também.

no fim, importa menos a canção original de laura habuki, porque a helena compõe a própria canção, que inclusive abre o livro. uma canção sobre um amor secreto, seu relacionamento com outra mulher, que começa tímido diante da avó, mas termina impaciente para ser livre.

essa busca por laura habuki acaba sendo também uma busca da própria identidade dentro daquela família. quando helena vai revirando o passado, vai também entendendo um pouco sobre a cultura árabe, a língua, sua árvore genealógica. ela conjuga aqui a tradição e a tradução, uma transposição dessas lembranças para outro tempo, pra modernidade que ela está inventando. ela não está só buscando essa laura original, resgatando o passado familiar, orando as mesmas rezas, jogando as mesmas charadas, repetindo as lições – ela está inventando a laura, e enquanto isso ela inventa a si mesma.