eu poderia começar a comentar os poemas da nádia camuça de muitas formas, mas eu fico pensando que é o título desse primeiro livro dela que cria a melhor imagem, a que poderia descrever o livro inteiro.

meus fantasmas dançam no silêncio. o silêncio, a negação, a mera sobrevivência se tornam música, melodia, para fantasmas, o passado, o trauma, todas as questões antigas que desenvolveram o lugar da mulher ainda hoje. a poesia da camuça vai partir disso, de um modo de embrulhar gritos, um jeito de romper com o silêncio. um jeito de ouvir música 24 horas por dia.

primeiro, ela dispõe alguns poemas que refletem justamente sobre as condições necessárias para a criação poética e sobre como as mulheres precisam enfrentar muito mais dúvidas, incertezas, questões quando se trata de demonstrar seu lugar, sua relevância, sua arte ou mesmo demonstrarem que estão vivas. que existem. que precisam de espaço para circular com suas produções.

depois, a segunda parte vai apresentar alguns poemas que deixam mais marcadas a ideia de gênero, ao que significa ser mulher hoje. está muito presente nessa parte uma ideia quase de adoecimento, não de uma vida plena, mas de sobrevivência – principalmente quando a gente percebe, entende, que o feminismo, a sororidade, a criação de redes de apoio vai se mostrar um modo de fortalecimento.

a parte final já aponta na direção, no caminho do corpo feminino como potência, do desejo como forma de expressão, a expressão do prazer como forma de poesia. eu havia conhecido a camuça como parte de uma coletânea chamada o olho de lilith, uma coletânea de poesia erótica de mulheres cearenses, e o último terço do livro talvez seja o que mais se aproxima desse movimento anterior, apesar de todos os poemas terem uma veia muito forte do corpóreo, do físico.