o posfácio do livro escoliose, da ana frango elétrico, tem uma anedota curiosa sobre como ela decidiu que queria ser artista e trabalhar com poesia. ela um dia pensou que queria fazer filmes, mas não tinha dinheiro. e a poesia seria o meio mais barato de produzir imagens.

eu conto isso logo no começo desse episódio pra apresentar esse livro porque dá perceber nessa ideia de poema como mini filmes algo interessante na poética da ana frango elétrico. de um verso pra outro, de uma estrofe pra outra, a gente tem cortes nos raciocínios, como um filme mesmo. é o movimento ou técnica que ela própria inventou o nome e se chama aí o subtítulo do livro, paralelismo miúdo, que bebe muito do surrealismo, do dadaísmo, da montagem cinematográfica, e também sua própria pesquisa musical, como compositora. ela tem dois álbuns lançados e alguns poemas desse livro inclusive já foram musicados.

enfim, ela vai procurando ideias e sons em palavras, invertendo as noções, criando camadas. as cenas mudam, as paisagens se transformam, as ações se encadeiam até que a gente consiga visualizar um conjunto de coisas que expressam uma imagem geral.

eu digo “conjunto de coisas” porque não dá pra dizer que essas imagens são feitas apenas da visão – ou COM a visão, ou A PARTIR DA visão, ou PARA a visão, porque esses poemas carregam sentidos múltiplos. sentido no sentido de sentido mesmo, cinco sentidos. escoliose é cor, mas também é textura, cheiro, olfato, paladar, barulho. ana frango elétrico é o som da campainha, o som do espirro, o som do transito, o cheiro de grama, o cheiro de tinta… ela tenta sentir o gosto das cenas de sexo no cinema, beija outra pessoa a pintando com a cor roxa, o açaí é uma orquestra gelada.

e vai inventando o próprio mundo sinestésico, onde o cheiro de uma coisa nem sempre corresponde ao gosto dela.