imagine um evento sobre violência. o evento acontece num hotel de luxo, patrocinado por um dos bancos que mais lucraram no último ano, uma forma sutil de bilionários moldarem o debate público, e aparecerem na mídia como pessoas interessadas na difusão de liberdades e valores democráticos. imagine uma mulher, uma artista que trata das relações entre violência e pornografia, entre padrão de beleza e desejo, entre desejo e pulsão de morte. a artista é convidada para compor a mesa desse evento, mas sua arte provoca um homem. esse homem a ameaça. quando a mulher sobe ao palco, antes mesmo de começar a falar o discurso que planejou, no meio de um improviso para rebater as ameaças que recebeu minutos antes, é acertada com uma barra de ferro. seu peito rompe. o palco tem três seguranças que não fazem nada. a plateia tem sessenta pessoas que não fazem nada. o corpo da mulher tem 130 quilos que não fazem nada, não se defendem, apenas se deitam, esperando por mais chutes e socos. a cicatriz da mulher ainda estará visível meses depois.

e ela é só o começo de “solução de dois estados”, de michel laub. ou quase isso.

o livro não começa exatamente com essa cena, mas essa cena é repetida ao longo do livro diversas vezes: em orientações diferentes, com mais ou menos detalhes, sob ângulos de dois personagens distintos. dois irmãos que, de certa forma, representam uma polaridade que é expressa no espaço público atual.

Raquel Tomazzi é essa artista da performance, que desde pequena recebe xingamentos por ser gorda. ela nunca foi exatamente aceita no ambiente escolar, então,  demonstra desde cedo uma aptidão ou uma busca por outras linguagens que não sejam essas dominantes. o curioso é que ela vai deixar de lado a linguagem de um espaço que a machuca, para assumir outras linguagens que machucam seu corpo também: sua arte é uma arte que leva o corpo ao extremo, longe do considerado limpo, fácil, puro.

sua arte vai falar de seu próprio corpo abastado, do corpo que é violentado, mas que veio de famílias que tem empregadas, com acesso a uma educação cara, que morou no exterior, fez intercâmbio, que tem um certo repertório de literatura, bens de consumo, capital cultural.

a arte dela, como boa parte da arte contemporânea, é inacessível a um grande público e essas questões aparecem no texto. solução de dois estados vai olhar muito para todas essas contradições em ser um artista com posicionamento crítico num mundo regido pelo dinheiro. o que diz respeito também ao espaço por onde esse próprio livro circula, um ambiente ainda fechado e restrito.

o segundo personagem é Alexandre Tomazzi, irmão mais novo da Raquel, um homem que não teve a mesma oportunidade que a irmã teve, a de estudar fora do brasil. e a história dele parte desse ressentimento que é relativo tanto ao ambiente familiar quanto ao ambiente público, econômico, brasileiro, porque fala diretamente das crises, da inflação, dos níveis de desemprego que às vezes impedem certa classe média de manter o próprio estilo de vida. apesar de tudo isso, é lógico que alexandre vira dono da própria rede de academias e virou um exemplar daquela figura que faz questão de dizer sempre que pode que enriqueceu com o próprio mérito, com muito trabalho e suor.

esse livro é todo escrito em forma de diálogos, recortes, decupagens de entrevistas que começam com a agressão que Raquel sofreu no evento e se tornam um documentário. essa forma de escrita combina muito com o modo como conversamos e discutimos hoje na esfera pública, onde apenas trechos de coisas já formam nossa opinião.

a gente tem ali frases ditas pelas personagens, mas a gente não tem a descrição da entonação, dos gestos, dos possíveis sorrisos, da posição das pernas dos personagens. a gente tem um único elemento para criar a cena, para imaginar a situação. e nessa, é impossível que o leitor não se posicione. ao escolher uma narração mais calma ou mais acelerada para um ou para outro personagem, você estará tomando um lado, escolhendo, decidindo quem merece mais ou menos empatia, quem está mais calmo ou mais irritado com os confrontos.

todo o livro é a suposta transcrição de materiais brutos ou pré-editados por uma cineasta para que haja um debate sobre a violência no brasil. o lugar que esses dois irmãos ocupam no mundo seria uma forma de tentar entender o lugar que a raiva ocupa no cenário brasileiro. e aí, em frente às câmeras, tudo se torna um jogo de acreditar ou desacreditar, convencer ou não o leitor ou espectador do filme. um jogo que passa pelo ataque do outro, pelo se fazer de vítima, por técnicas de convencimento que não correspondem exatamente à apresentação de fatos, mas de uma proposição de versões, às vezes quase conspiracionistas.

existe um debate óbvio aqui sobre o discurso médio de esquerda e direita. mas também temos ali lei versus milicianismo, civilidade contra militarismo, arte contra razão, o investimento em políticas públicas de acesso a arte contra uma ideia de estado mínimo.

como se produz uma arte ética no capitalismo? será que esses editais todos de grandes bancos e empresas a que os artistas se submetem são uma questão de emancipação? ou, por outro lado, uma empresa que gera trabalho e lucro mas que se disfarça de instituição religiosa realmente emancipa, produz transformações?

qual desses caminhos a gente deveria escolher para pensar o futuro do país? a gente precisa escolher um desses dois caminhos?

apesar de tudo no livro ser extremo, eu acredito que o desfecho não carrega um sentimento de desesperança. pelo contrário, eu acredito que esse livro constrói um caminho pro leitor refletir como é importante a gente deixar de lado essas retóricas prontas, as frases feitas, a falta de profundidade, o ataque acima de qualquer coisa, deixar de lado essa visão do outro como inferior ou inapto ou burro ou incapaz de mudança.

é preciso isso: se desfazer dessa dualidade, desses dois lados únicos. não no sentido de assumir um caminho do meio-termo, do centrão, da isenção, mas de inventar algo novo.

o que importa é que a cicatriz não é o fim.