duas mães conversam num parque. carla conta do que aconteceu com david seu filho. um cavalo, um acidente, um corpo quase morto. enquanto ouve o relato cheio de detalhes dessa mera conhecida, amanda vai olhando de longe para a filha. ela vigia cada passo da menina, pronta para correr ou para gritar por socorro no primeiro sinal de que a menina vai cair, se machucar, passar por algo parecido. carla explica que não sente mais que o filho é o mesmo desde aquele dia. ele mudou seu hábitos, seu jeito de falar, suas brincadeiras, o modo como olha para o mundo. tudo mudou depois que ele chegou perto demais da morte.

esse impulso que amanda chama de distância de resgate é a única coisa que fará com que ela não passe pela mesma coisa com sua filha.

é assim que começa esse livro, apresentando muito bem o título do livro, distância de resgate, e já mostrando como a única coisa que importa para essa narradora é sua própria realidade de uma mãe média, a pequena nina é seu bem mais importante.

distância de resgate é o nome que amanda dá então ao espaço que existe entre ela e a filha, que sempre precisa ser próximo o bastante para que ela consiga chegar a tempo de qualquer operação de salvamento. é por isso que ela fica o tempo inteiro observando cada passo da filha e calculando mentalmente quantos segundos a separam de um engasgamento, de uma queda, de um afogamento.

no início, a gente acha que existe algo de instinto materno nessa questão, uma propensão a um salvamento, uma mãe que sente que algo está errado e faria de tudo pela criança. com o desenvolvimento do romance, ou melhor, com o desenvolvimento dos personagens, dessa narradora especificamente (e ela é um acerto tremendo dessa narrativa, digo, o ponto alto desse livro são as personagens). a samanta schweblin vai deixando evidente então que se trata, na verdade, de um peso imposto sobre a maternidade.

a gente vai entendendo ali pelas nuances ao longo das cenas que a amanda não se sente super poderosa, não acha que seja uma heroína pra filha. ela se sente aflita. não se trata de intuição, mas de ansiedade. ela entra em pânico quando elas se distanciam demais, e sente um medo físico, que a aperta dentro do estômago, que a deixa enjoada e dolorida.

mas esse é um livro que pode ser enquadrado em suspense e é o formato dele que vai deixando tudo misterioso. o livro é estruturado todo em cima de um diálogo entre a amanda, que está desnorteada, fora do eixo, com uma espécie de amnésia, e o david, o filho pequeno da carla, que está tentando ajudar essa mulher a se lembrar do passado. ele faz um tipo de interrogatório com ela, pra tentar achar detalhes que explicam porque eles dois chegaram até onde chegaram.

mas, esse lugar especifico, também é um mistério por boa parte do livro. a gente começa vendo essa visão expandida, dessa mãe e dessa filha chegando num vilarejo novo. é como se depois desse um zoom e a gente começasse a ver mais detalhes, como por exemplo crianças deformadas, com corpos tortos ou membros em excesso. depois outro zoom, e outro, e outro. até o lugar onde estão os dois ali.

no fim, a samanta schweblin não entrega todas as respostas e isso pode chatear muita gente. mas eu gosto de como ela consegue deixar a gente aterrorizado o livro inteiro, entrega algumas pistas mas não revela outras coisas. deixa algumas coisas subentendidas e vai criando discussões em torno do que faz parte do mundo concreto – a maternidade, do uso de agrotóxicos, da alimentação, da ansiedade, da saúde mental… e também do mundo imaterial, da fantasia, do maravilhoso, do sobrenatural.

o resultado é realmente um romance que permeia fronteiras, bordas. que não se assume nem no realismo nem na magia, nem no folclórico nem no religioso. é uma grande história de possibilidades, de caminhos possíveis – contudo, todos os finais são de horror e medo.