jonathan safran foer começa a pensar e entende que não existe nada mais efêmero pra nossa civilização do que a respiração. por outro lado, ele percebe que é impossível pensar algo que dure mais. a cada vez que eu inspiro ar, inspiro também moléculas do último sopro de vida de júlio césar, de marie curie, das irmãs bronté, de rosa parks, de miss biá, do indígena tibira, do autor da primeira carta de suicídio, e até do avô que nunca conheci. e não só dos humanos, mas de todos os animais também: os esquilos da mongólia, as galinhas ainda mornas que minha avó havia depenado, o último suspiro do último pombo correio.

esse fato, essa compreensão mágica do tempo e do espaço me deixa maravilhado logo no primeiro capítulo de “nós somos o clima”. a cada inspiração de ar, cada pessoa no mundo absorve a história da vida e da morte na terra. essa ideia nos oferece uma visão aérea da história: uma enorme teia tecida a partir de um único fio.

o que você vai fazer com essa informação?

é essa a pergunta que ele vai repetindo de formas diferentes ao longo de todo esse tratado sobre a crise climática que acomete o mundo hoje. são quase 300 páginas onde ele vai investigar narrativas diversas sobre o aquecimento global, grandes conflitos que vivemos e a nossa capacidade de mudança. olhando não exatamente pra história, mas pras narrativas, pra narratividade, é que ele vai tentar entender o que nos desperta o sentimento de alienação e distanciamento e o que nos causa um sentimento de cooperação e mobilização.

pode parecer, pelo título e pela própria publicidade em torno desse livro, que ele é uma obra de divulgação científica, mas não exatamente. eu gostei muito dessa experiência de leitura, justamente porque ele mistura muitos tipos diferentes de escrita e formato – tem divulgação científica, sim, mas também tem jornalismo, ensaio, memórias, historiografia, listas, em devidas proporções até ficção.

em um dos capítulos, ele escreve um monólogo interno, onde ele debate com a própria consciência. em outro, ele imagina como as gerações futuras vão lidar com os problemas que nós criamos e jamais tentamos resolver de verdade. tem histórias sobre uma pessoa que não fazia exercícios, mas conseguiu levantar um carro para salvar uma mulher; sobre campanhas de vacinação do passado; histórias curiosas sobre o que acontecia na segunda guerra mundial longe dos cenários de guerra propriamente ditos; a diferença entre disputar uma final de campeonato dentro e fora do seu país natal; sobre nossas tentativas de colonizar outros planetas; sobre nosso modo de lidar com o trânsito; sobre as pessoas que moraram antigamente na casa onde ele escrevia este livro.

por meio de várias analogias, comparações, metáforas e dados, ele vai apontando quais práticas mais prejudicam nossa existência, mais interferem diretamente no ecossistema, no habitat das outras espécies, na retirada da harmonia e do equilíbrio da terra. e tenta explicar racionalmente porque que mesmo as pessoas que tem ciência dos riscos existenciais, mesmo aquelas que sabem da urgência com que precisamos mudar nosso estilo de vida, são contraditórias quando se fala desse assunto.

no livro inteiro, safran foer se coloca nesse lugar de alguém que não é ignorante ou maldoso, mas que mesmo assim não faz a diferença que pode de acordo com as informações que tem. ele conta de passeatas que participou, de palestras onde militou, conta que já doou dinheiro, que debateu com amigos em jantares privados, mas que também já se sentiu tão distante de casa dentro de um hotel que, para sentir conforto, comeu um hambúrguer de uma rede de comida rápida e ultra processada, que ele sabe que é a pior comida, a que mais faz mal para o corpo e a que mais agride o meio-ambiente.

enfim, mais do que uma crise climática, a gente vive antes uma crise de convicções, uma crise de empatia, uma crise de imaginação e são essas que nos impedem de seguir em frente e tomar as atitudes importantes. e talvez seja esse o tema principal de “nós somos o clima”. o entendimento de que o clima é uma abstração da qual nós precisamos nos sentir parte. fica a recomendação dessa leitura.