se eu disser que o tema do episódio de hoje é um livro chamado “questões de viagem”, muita gente vai continuar ouvindo dizendo “hmmm, que título interessante! eu também adoro viajar… a literatura tem sido uma viagem pra mim agora que as rodoviárias e os aeroportos estão em suspensão. vamos ver o que esse menino tem pra falar…”

que bom que você continua aqui. mas se eu disser que essa é uma coletânea de poemas de elizabeth bishop, a poeta cancelada, será que você vai me cancelar também?

talvez o nome da bishop tenha se tornado uma grande polêmica em 2019, quando ela foi anunciada como autora homenageada da flip de 2020 e uma série de cartas controversas dela foram expostas, onde ela falava sobre a ditadura e o golpe militar como uma salvação para o brasil.

no fim, a homenagem foi cancelada, uma série de lançamentos dela foi suspensa, inclusive, se eu não me engano, a biografia autorizada. contudo, esse livrinho de bolso chamado “questões de viagem” acabou saindo. foi publicado pela companhia das letras no ano passado, numa tradução do poeta Paulo Henriques Britto. eu resolvi ler porque me interessei pela proposta e… não é que eu gostei muito?

será que você vai me cancelar também?

eu fiquei realmente impressionado com a capacidade que a elizabeth bishop tem de criar imagens. em seus poemas, ela praticamente fotografa paisagens e cenas, o que é muito interessante, em termos de técnica, linguagem, vocabulário. questões de viagem é uma coletânea de poemas que começa com a chegada dela no brasil, num poema sobre o porto de santos, descreve vários cenários e situações nossas, como a riqueza de paisagens naturais e o voo dos balões de festa junina. ela também consegue olhar para problemas sociais, como a violência, sem um julgamento tão exagerado e, de certa forma, até com a compreensão de que isso é resultado de ações de desigualdade, e não culpabilizando aquela pessoa pobre lá na ponta da situação.

já na segunda parte do livro,  os poemas falam de outros lugares, fora do brasil, onde a bishop visita a amigos e relembra alguns momentos da sua infância e juventude, antes de vir viver aqui. em vários poemas, ainda temos a mesma bishop da parte anterior, mas é uma parte quase ruim e arrastada, principalmente porque inclui um conto enorme, meio aleatório.

o que fica mais evidente é o jeito como ela se deslumbra com o mundo, principalmente com as nossas paisagens. ela vem de uma realidade totalmente diferente e se coloca realmente numa posição de estranhamento, de surpresa. ela consegue captar movimentos, texturas, nuances que nosso olhar mais acostumado com a representação da nossa natureza já deixou de perceber. alguns poemas me arrepiaram com o uso das cores, com o modo pelo qual ela consegue descrever muitos tons diferentes de verde, por exemplo, e se fazer entender pelas comparações, metáforas e imagens que cria.

é lógico que algumas pessoas podem ver a existência desse livro por um lado negativo, como se fosse mais uma obra que apresenta um olhar colonizador, imperialista, sobre a colônia, o povo colonizado. mas, eu realmente acho que essa é uma boa leitura. eu não senti esse olhar de cima pra baixo na escrita dela, mas algo bem horizontal, admirado. nos ajuda a estranhar nosso próprio cotidiano e olhar para aquelas coisas que nós já nos viciamos a não perceber.

e dá pra sentir na visão dela o motivo que ela desembarcou no brasil pra passar duas semanas no país, mas acabou ficando por quase vinte anos.