Cecília está de volta pra cidade da qual saiu anos antes. seus pais, sempre companheiros em tudo que faziam, totalmente tementes a deus, morreram na mesma noite. nem a morte pôde os separar, como nessas bonitas histórias de amor que às vezes ganham os noticiários. talvez o marido tenha sofrido uma parada cardíaca espontânea e a esposa não tenha aguentado imaginar viver uma vida sem ele – então também sucumbiu, de mãos dadas. talvez o inverso tenha acontecido. Cecília vai imaginando as possibilidades e todas elas parecem menos trágicas do que a suspeita que uma vizinha levanta: a porta foi deixada aberta à noite, um homem visitava o casal com frequência nos últimos meses, inclusive na noite em que os dois se foram.

Apague a luz se for chorar é o romance de estreia de Fabiane Guimarães, onde ela narra a história de Cecília, saindo do rio de janeiro, onde tenta a vida há alguns anos, e voltando para Pirenópolis, em goiás, para lidar com a morte dos pais e toda a burocracia que envolvem um enterro e sua herança. o que ela não imaginava era lidar com as desconfianças que acabam aparecendo no seu caminho, tirando todo o romantismo que ela imaginava.

paralelo a isso, existe outra história. em outra cidade, com outros personagens. em Brasília, um veterinário é abandonado pela esposa com um filho com deficiência. ele imaginava que teria um filho que o acompanharia para as mais diversas situações, brincando juntos, conversando, correndo. mas o garoto não aprendeu a fazer nenhuma dessas coisas. é quando ele descobre um tratamento com células-tronco em outro país e seus capítulos vão se tornar uma busca por uma quantia grande de dinheiro, aplicando golpes em madames ricaças e procurando animais perdidos pela cidade para receber as recompensas.

eu acho que eu posso chamar o gênero desse livro de mistério suave. uma nomenclatura que eu acabei de inventar pra falar desse romance que é muito pacato, muito humilde em toda a sua estrutura, mas que vai prender quem lê porque é um acúmulo de pistas, segredos e mistérios (no caso da narrativa da Cecília) e uma corrida contra o tempo, com ação e aventura, (na narrativa do João, o veterinário). foi assim pelo menos comigo. esse romance tem 170 paginas, a escrita é muito leve e ágil, sem grandes firulas ou rebuscamentos, mas que me mantiveram desperto durante toda uma manhã de domingo.

eu me diverti com esses personagens, fiquei curioso, me envolvi com os dramas, reagi às discussões, fiquei com raiva de algumas decisões que eles tomam as vezes. o livro tem uma vibe meio novela das seis, com esses cenários no interior, acontecimentos que não são violentos demais, questões muito humanas… a relação de pai e filho com deficiência sendo desenhada entre frustrações e conquistas. a história de Cecília se descobrindo enquanto pessoa, se libertando dos pais e descobrindo uma profissão que faça sentido. esses dois protagonistas se desencontrando ao longo do tempo com pessoas que amaram. a história dos pais falecidos, que refletem muito sobre o que significa perdão, amor, família, casamento…

o grande tema, talvez, que une as duas histórias com um sentido, digamos assim, seja mesmo a morte. como veterinário, o João sacrifica animais diariamente. ele chega em casa todos os dias com as mãos sujas de morte. do outro lado, a Cecília lida com uma morte que é estranha e enigmática, é fria, seca, não combina com a imagem dos pais que ela tinha antes de tudo. pros dois, diante de suas realidades, fica difícil imaginar um futuro – é possível imaginar um futuro onde novas imagens dos pais não serão possíveis? ou onde as imagens do filho serão sempre iguais, estáticas?

a gente se acostuma com a crueldade do fim, menos quando o cachorrinho é nosso.

quando eles decidem tomar conta das suas narrativas, os dois jogam contra isso. Cecília indo atrás de pessoas por toda a cidade e confrontando segredos que nunca imaginou para entender o que realmente aconteceu e seguir em frente. João correndo atrás do dinheiro que precisa para ir para longe com o filho e permitir que ele viva tudo aquilo que ele ainda não conseguiu.

pro mistério em si, as coisas se desenrolam de modo fácil, apressado, com muitas explicações, coincidências, conveniências, quase previsível. mas, nada mal para um domingo comum. uma novela agradável e calma, para quem quer passar o tempo, sorrir com algumas frases bem colocadas e ter a certeza de um final feliz.