embaixo de toda pintura, de toda casa, existe alguma outra coisa. pode haver uma pixação escondida, uma frase escrita a lápis, a gradação de altura de uma criança ao longo do tempo, um tijolo trincado, uma outra pintura, de outra cor, mais clara e mais suja. 

toda cidade é feita desses fantasmas, dessa cidade que já esteve ali e não está mais. do cinema que virou igreja, do porto que foi corroído pelas águas, das tábuas que apodreceram e foram substituídas para evitar acidentes. restos de cartazes e lambes sendo pregados uns por cima dos outros e, com o tempo, ganhando contornos improváveis e imagens que se misturam. uma ruína em cima da outra. toda cidade é uma sobreposição de tempos.

o livro de estreia de pedro lucas bezerra parece tentar refazer esse movimento, construir uma cidade por cima de outra, na forma de poesia. um verso vai se justapondo a outro até vermos que estamos em muitas memórias diferentes na mesma estrofe. pessoas andando em ruas vazias cobertas de pegadas, um papagaio que canta uma canção que não é sua, o quarto vazio cheio de um vento que já se foi. um rolo de filme carcomido pelo tempo. 

é algo meio onírico, um passeio por uma natal que mistura objetos concretos, como viadutos, postes e ruas, com elementos surreais, um tempo dilatado, um acontecimento esquisito. é carnaval que chove, bar com música eurasiana, uma lágrima explosiva. inesperdamente, uma flor branca. toda cidade é um apocalipse.

mesmo com tanto barulho de mar, com tanta locomotiva de arame, com tanta pólvora no bolso. parece que não fica nem mesmo uma voz. acima de tudo, só o nada. sobra só silêncio e solidão. silenciosa como toda cidade é. e solitaria como toda poesia acaba sendo.