o protagonista desse livro é chamado pela mãe e pela avó de cachorrinho. são vietnamitas vivendo no território estadunidente, sem falar quase nenhuma palavra do inglês. rose, a mãe de cachorrinho, trabalha intensamente – aspirando produtos químicos em salões de beleza, cansando os braços com faxinas, perdendo o corpo em fábricas. esgotada, ela chega em casa todos os dias, entra no banho e pede a cachorrinho que pegue um cigarro – ele vai buscar e quando volta, rose invariavelmente está dormindo na banheira. ele fica preocupado com o estado dela, cada vez mais exasperada, mais fraca. sente medo que ela durma na banheira, se afogue e morra. então, usa a única arma que tem: seu inglês. ele liga para o chefe de rose, pede que lhe diminua o horário de serviço, explica o temor que tem. uma semana depois, o turno de trabalho de rose diminuiu.

sobre a terra somos belos por um instante é cheio dessas cenas que são simultaneamente duras e afetuosas. é sobre essa mãe, irritada, rígida, exigente, mas também afetuosa, cuidadosa. cheia de um cuidado que vem do medo, mas é um cuidado. medo de viver fora do país que nasceu, medo de viver num bairro desconfortávl, medo de se esquecer da cultura que deixou para trás no Vietnã. um medo que as vezes vai se transformar em soco, em grito, mas também vai ser alguma forma de acolhimento para o cachorrinho em um mundo que já é cruel demais do lado de fora de casa.

esse livro é uma tentativa de ocupar o corpo da mãe para tentar se comunicar com ela. o narrador escreve para a mãe de dentro de um corpo que já foi a mãe. screve com um alfabeto escrito pelo sangue, nos tendões, nos neurônios, tentando encontrar a origem dessa narrativa de imigração rumo ao lugar onde ninguém consegue mais sobreviver. um belo país, a não ser que você seja indesejado.

o grande interesse desse narrador não é tentar fazer frases, mudar a língua, transformar a literatura. ele quer se libertar. ele quer liberdade. só que a grande impossibilidade desse livro cumprir seu objetivo parte justamente da escrita. ocean vuong escreve esta carta para chegar até a mãe, mas a cada palavra que põe no papel ele fica uma palavra mais longe dela – porque eles não compartilham a língua inglesa. a língua materna dele está pela metade, porque a mãe não chegou a concluir os estudos. a língua familiar feita de dois idiomas pela metade – o inglês que a mãe não aprendeu, o vietnamita que a mãe não soube ensinar. a vida é grande demais para o vocabulário, as cantigas, as tradições e os gestos que eles compartilham. gestos feitos com mãos hediondas, esculpidas como destroços, resumindo sonhos que nunca se concretizaram.

é por isso que essa é uma liberdade impossível. basta uma pessoa sair da jaula para logo perceber que está em outra jaula maior. e assim por diante. a liberdade para alguém como ele, imigrante, pobre, homossexual, marginalizado, é impossível. é apenas a distancia entre a presa e o caçador. é como se ele vivesse numa cidade onde todos os lugares são decorados com bichos empalhados. porque um corpo empalhado presentifica uma morte que não vai acabar. é um morte que continua morrendo. é uma sinalização, uma lembrança e também um aviso.

é assim que ele entende seus amigos, que vão aparecendo pelas páginas. são colegas que em um dia compartilhavam uma festa, um jantar, uma lanchonete, a sala de aula, uma saída de carro, um passeio de ônibus – e no dia seguinte morrem em acidentes, suicídios, negligencias, overdose. sobre a terra, temos um narrador esgotado, de ver os seus morrerem, com medo de quando será o próximo, com esperança de continuar escrevendo.

cachorrinho então precisa ser forte, aprender a tomar conta de si sozinho, já que a avó não se aguenta mais e a mãe está sempre ocupada. entra ainda crianças nos primeiros trabalhos, se inscrevendo em empregos que vão mostrar a ele como se tateia o mundo. no trabalho, ele irá conhecer outras linguagens – comunicações distintas, de imigrantes diversos, que se entendem por sorrisos, sinais, silêncios, hesitações, desenhos na terra. e ainda a linguagem do amor – ou quase isso. uma linguagem do desejo, do suor, da saliva, do desespero, da taquicardia, do medo de perder alguém. ele enche a barriga de idiomas para conseguir viver fora de casa, se defender das ameaças, das surras que vem quando ele vai se tornando quem é, ou melhor, quando ele vai conhecendo aqueles que são diferentes dele.

a guerra nunca saiu de perto dele. a guerra nunca saiu de dentro da sua mãe. o protagonista aqui tenta remontar as origens da sua família, perseguindo os rastros que chegam até a guerra do vietnã. os bombardeios, a crise econômica, a migração em massa, a violência jamais esquecida. a guerra ainda atormenta os sonhos da avó, já debilitada. porque quando a guerra entra em alguém ela nunca mais sai. ela curva as costas, domina a postura, se instala nas articulações. o trauma afeta não só o cérebro, mas o resto do corpo. é grito de dor aguda.

não há alívio, porque o próprio nome da mãe foi mudado pela avó no caminho, na fuga. o nome da mãe é decorrência da guerra, irrecuperável, assim como todas as histórias que foram largadas pelo oceano. e o nome que ela deixou para trás jamais será lembrado. essa questão do nome é apenas mais uma das ideias que decorrem da língua, da linguagem, que acaba sendo o principal tema.

a linguagem aparece como um problema – um língua integralmente em guerra, cheia de lacunas, silêncios, máscaras, gaguejadas, preconceitos, reações – mas tambem uma solução, um alento. as vezes, a gente é apagado antes que dm a chance de dizermos quem somos. pela literatura que ele liga as pontos da sua vida, tenta imaginar possibilidades de resistência, entende o mundo por meio das palavras de pessoas mortas que jamais sonharam que um rosto como o dele sobrevoassem sua frases. logo a literatura, essa arte classista, elitista, vai permitir que ele dê a ver as realidades escondidas daqueles que são como ele, que ele torne visíveis as vidas de seus amigos e parentes, de todos os cadáveres que insistem em não enxergar.

no meio disso, ocean vuong ainda consegue apresentar as violências que sofrem pessoas em subempregos, explica como funciona o uso de drogas nos bairros periféricos, as barreiras físicas e simbólicas dos estados unidos, denuncia a indústria farmacêutica americana, mostra o descaso que os hospitais podem significar, questiona a beleza e o que significa ser um monstro, abre espaço dentro de si para o luto. narra toda a dor que sentiu, toda a dor que compartilhou com sua avó e sua mãe, com seu primeiro namorado. toda. a dor. mas sem perder a poesia, sem perder a ternura, sem perder algo total e brutal: o afeto.