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ou não

uma conversa de felipe andré silva com daniel galera

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unkle – eye for an eye

Lembro de sentir algo muito forte quando aconteceu aquela avalanche de violências com o Lucas Penteado na última edição do Big Brother Brasil. Duas frases em específico (vistas no Twitter já que eu não acompanhava o programa de fato) me chamaram bastante atenção. A primeira falava sobre como ele errou em ter acreditado que estava num espaço seguro onde seria acolhido caso cometesse algum deslize, o que de fato fez, mais de uma vez. A segunda era um trecho do discurso de Tiago Leifert depois da saída do competidor, ponderando com os outros jogadores que talvez tivesse faltado fairplay, da parte deles. Não vem ao caso o motivo dessas frases terem ficado povoando minha mente até hoje, mas é fato que alguma coisa se esclareceu quando cheguei no final desse “O deus das avencas“, livro novo do Daniel Galera.

A última das três novelas que compõem o volume fala de um futuro distante e distópico, onde uma heroína de moral particular, porém inabalável, navega por uma série de agruras que desafiam a lógica do mundo como ela o conheceu. Em algum momentos me lembrava de Mad Max: Fury Road, em outros, ia mais para Midsommar. Tento não incorrer em spoilers mas existe na trama uma comunidade sustentada na base do diálogo e de seu pacto tácito de respeito com a natureza, em especial com as abelhas, que se vê ameaçada pelo espectro da violência e do fanatismo, mas consegue vencer essa barreira de maneira muito estoica, pelo menos para mim, preso no Brasil de 2021. Levando em consideração que a primeira das histórias do livro alinha a aflição de uma grávida e seu marido durante os últimos momentos pré-parto com o iminente apocalipse da eleição do então presidente, talvez possa se assumir que Galera faz aqui não apenas o seu livro mais distante da realidade palpável e imediata, mas também o mais otimista, mesmo quando mergulhado até o pescoço na desgraça.

Dito isso, não consegui não pensar (bastante) na também tripartida narrativa de “Sebastopol“, livro lançado pelo escritor e editor Emilio Fraia em 2018. Naquele livro Fraia falava, às vésperas do apocalipse, sobre um pesar e uma estagnação generalizadas; uma observação de pessoas com muito pouco ou quase nada de concreto a propor, num país que não ajudava elas a ter energia. Imagino que Emilio, assim como boa parte de nós, imaginávamos o que estava para acontecer, mas ainda agarrados numa vã esperança. “O deus das avencas” me parece atualizar ou materializar, em alguma medida, a desesperança que atinge a alpinista aposentada, transformada em coach, de uma das histórias livro de Emilio. Para Galera, a derrocada ecológica, moral, política, sanitária e tanto mais do nosso planeta é uma questão de tempo, importa mais quem são as pessoas no entorno quando isso acontecer. Fiquei com dúvidas, decidi perguntar a ele.

Felipe André Silva: Deixa eu começar então falando um negócio talvez irrelevante pra essa conversa, mas não pra mim. O “Até o dia em que o cão morreu” foi o primeiro livro “adulto” que eu li por escolha própria. Isso deve ter acontecido lá em 2006, acredito eu, quando a Companhia reeditou. Eu acho que foi uma leitura muito importante pra mim, não tanto por identificação, porque eu ainda tava meio longe de entender plenamente as engrenagens de solidão, e carência, e frustração que faziam aquele personagem se movimentar (ou ficar parado) mas porque acho que foi ali que começou a se sedimentar meu interesse pelas narrativais banais, digamos assim. Pessoas fazendo coisas, e alguém me contando um pouco sobre o que passa na cabeça daquelas pessoas quando aquelas coisas acontecem. E aí eu acho que em maior ou menor escala tu manteve isso ao longo da tua carreira toda, mesmo quando tinha uma inflexão policial, ou quando a escala aumentava, ainda eram, e são, livros sobre pessoas tomando atitudes e refletindo muito especificamente sobre elas. E aí muito por isso essa leitura do Deus das Avencas me deixou meio surpreso, porque a primeira novela tem muito daquilo que eu esperava encontrar num livro teu, mas já com um sabor de maturidade, alguns passos à frente do ser ou não ser juvenil, algo mais como “seremos ou não seremos?”. Mas aí o livro salta no tempo e posiciona essa mesma pergunta em lugares que francamente não esperava, o que é ótimo. Faz algum sentido, tudo isso que eu digo?

Daniel Galera: Faz muito sentido, sim, o que tu diz acima. Desde o “Cão” até o “Meia-noite e vinte”, eu tinha uma inclinação a elaborar o que se passava na cabeça dos meus personagens. Em outras palavras, o discurso interno deles, ou a sua consciência, era quase sempre o filtro pelo qual a realidade da história contada me interessava. A psicologia do personagem e o modo como sua vida introspectiva podia ser convertido em linguagem importava muito para a forma que os livros assumiam, e também para os assuntos e temas que ganhavam destaque. Isso pode ter a ver com a minha formação: autores como Philip Roth, David Foster Wallace, João Gilberto Noll e Hilda Hilst, alguns que tiveram importância na formação do meu estilo, são notáveis em seu talento para criar a voz da consciência e da sensibilidade de seus personagens. Pode ter a ver também com o fato de que sempre fui um sujeito de forte tendência introspectiva. Histórias podiam estar à minha volta, mas aconteciam sobretudo dentro da minha cabeça, a imaginação é uma coisa muito íntima, quase um modo de sonhar acordado. Em “O deus das avencas”, concordo que isso muda um tanto. As histórias brotam menos da voz da consciência dos personagens, e mais de um ponto de vista afastado, seja ou não em terceira pessoa. Eu não sei te dizer se isso é um desenvolvimento necessário do meu estilo ou se foi algo que me pareceu oportuno somente pra narrar essas três histórias específicas, nesse momento da minha carreira. Mas gosto muito do modo como tu definiu essa diferença: o ser ou não ser juvenil se torna um seremos ou não seremos. Tu me ensinou algo sobre meu próprio livro ao definir dessa maneira.

FAS: Tu acha que “Meia-noite e vinte” foi uma espécie de enterro, por falta de palavra melhor, de discussões que te instigavam antes, antes de ser pai, antes desse Brasil, e agora as discussões são outras? Digo outras histórias, e abordagens, no sentido de não mais se preocupar com a formação de caráter desses personagens, mas com o que eles fazem daquilo que já aprenderam.

DG: “Meia-noite e vinte” foi para mim um ponto de inflexão no sentido de que pela primeira vez senti um esgotamento parcial da estratégia de narração do romance realista, que vigorou nos livros que publiquei antes. Foi como se os acontecimentos históricos que transcorriam na época da escrita, somados às transformações da vida pessoal e social por causa das tecnologias digitais, aceleração do sistema capitalista, crises ecológicas et cetera, tivessem criado um ambiente mental e de vida cotidiana no qual narrar daquela forma tradicional me pareceu insuficiente, redundante ou atrasado. Falei disso um pouco naquela primeira edição da newsletter. E isso (já entrando um pouco na questão abaixo) teve a ver com a crise criativa que experimentei por uns dois anos. O que eu queria narrar agora, e como? Por muito tempo não esteve claro. Mas aos poucos algumas histórias foram ganhando forma na imaginação e me soando dignas de serem contadas. Eram meia dúzia, e pensei que poderia ter um livro de contos, mas ficaram mesmo essas três histórias maiores que se tornaram as novelas de “O deus das avencas”. Uma mantém o realismo do meu trabalho anterior mas o situa num momento imediatamente anterior ao desastre já vem vivido e conhecido da eleição do Bolsonaro. As outras duas exploram gêneros especulativos, ficção científica e pós-apocalipse, respectivamente, pra articular alguns temas que me parecem importantes pra pensarmos nosso presente e futuro: a inteligência artificial e as ideias pós-humanistas, a crise do antropocentrismo e o nosso envolvimento cada vez mais irrefutável com todas as outras formas de vida, entre outros. São histórias apoiadas menos na jornada pessoal de um sujeito específico, e mais em ideias e especulações sobre o mundo como um todo.

O mundo era um fósforo que queimava a pontinha dos dedos, mas a raça humana não ia soltar o palito, a luz da chama era nosso delírio e nossa perdição.

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o deus das avencas

daniel galera

PÁGINAS
248

EDITORA
companhia das letras

FAS: Na primeira edição da tua newsletter, lá em janeiro de 2019, tu começava a conversa falando sobre uma então dificuldade de escrever, compartilhava um pouco da dureza desse ofício. Naquele momento eu estava vivendo um período posterior a um processo que me levou a expor um momento muito dolorido da minha vida num filme, para conseguir seguir em frente, criativamente falando, e isso não se faz sem alguma ressaca. E aí, por mais que tu tenha detalhado um pouco desse processo ao longo das cartas que foi escrevendo, eu queria saber um pouco o que mudou, de onde vieram as palavras, se foi somente da desgraça do mundo, ou da vontade de fabular um mundo possível, não sei, me conta.

DG: Acho que eu apenas precisava de algum tempo pra processar, no corpo e na mente, as crises todas, a paternidade, as minhas crenças ou suspeitas sobre o que importava nesse momento. Houve um período em que tudo que eu pensava que podia dizer me soava redundante, ou então eu me sentia incapaz de dizer algo que talvez fosse relevante. E aos poucos essa impotência foi se dissolvendo e a vontade foi retornando. A lição que fica pra mim é como a dedicação continuada à leitura, ao pensamento e à autoinvestigação compensam, mesmo que no momento tudo pareça perdido ou esvaziado.

FAS: Me ocorregou agora que achei curioso tu ter citado o Roth e o DFW ali acima, porque semana passada eu iniciei uma conversa como essa nossa com o Eduardo Halfon, que é um autor guatemalteco incrível, e o livro dele que eu tinha lido recentemente o “Luto”, fala sobre, dentre várias outras coisas, identidades estilhaçadas ou repartidas entre países, entre línguas. E isso me pareceu muito significativo porque o Halfon, apesar de latinoamericano, se mudou muito jovem para e vive até hoje nos Estados Unidos, mas por algum motivo segue escrevendo em espanhol. Eu comentei com ele, numa pergunta ainda não respondida, que por um tempo me pareceu que a geração da literatura brasileira surgida nos anos 2000 não estava muito interessada em falar a própria língua, que havia uma urgência e um calor na literatura em espanhol que de certa forma havia minguado aqui, porque as referências mais caras a essas pessoas eram justamente esses dois nomes que tu citou, entre outros. Fiquei me perguntando se isso tinha a ver com a virada do século e a nova facilidade de acessar outras fontes, ou se tem mais a ver com uma espécie de desconexão que o brasileiro sente com essa ideia de América Latina, muito por conta da barreira linguística. Falei tudo isso porque apesar de ainda ter o teu estilo introspectivo, por vezes gélido, virtuoso mas distante, eu acho que o “Avencas” é um livro que se dá a permissão de se sujar muito mais. Desde a maneira mais óbvia, com a violência da terceira história, até com uma sensação de sujeira moral que vai contaminando o espaço e a vida das personagens desde o início. Tu acha que tu começou a beber de alguma fonte nova que levou o interesse pra esses lugares mais “permissivos”, digamos assim, como a ficção científica, ou era algo que sempre esteve aí?

DG: Hm, tem várias coisas aí. Concordo que o brasileiro sofre de uma desconexão com a cultura latinoamericana como um tudo. Gostamos de acreditar que há essa integração, mas nossas referências culturais descem mais dos EUA e Europa do que de nossos vizinhos. Não me excluo disso. Tive minha formação cultural e educacional em um ambiente assim, no qual o inglês era o outro idioma dominante. Mesmo morando perto das fronteiras de Uruguai e Argentina. Li muitos escritores desses países e fui um pouco influenciado por suas culturas, mas nada podia competir, na minha juventude, com Roth, Hollywood, MTV, Camus. Por outro lado, discordo que o brasileiro não tenha uma conexão com sua própria lingua. Não há como escapar dela, sendo escritor. Todo autor que tem Roth e DFW como influências certamente passou também por alguma combinação de Machado, Graciliano, Rosa, Lispector, Fonseca, Raduan, Vilela, Hilda Hilst, Fausto Wolff, Verissimo, enfim, alguns nomes entre muitos outros. O que existe, talvez, é uma propensão a se referenciar o que vem de fora, porque o português tem pouca visibilidade global e porque nossa cultura nunca superou a contento, apesar de tantos esforços notáveis, o trauma da derivação, do olhar de colônia. O sujeito prefere dizer que teve a cabeça feita por Cortazar, Faulkner, Céline ou Bernhard do que lembrar, na hora da pergunta, do quanto deve aos autores brasileiros também. E de todo modo, isso é uma análise que se aplica à minha geração, mas não tanto à atual. Os autores mais jovens já se relacionam com outro mundo de referências, no qual inclusive se deu o resgate de vozes esquecidas e injustiçadas, autores e autoras negros, e a inclusão de vozes que nunca foram consideradas pelo mercado e pelo recorte educativo, a literatura que se revela no ensino. As novas gerações pertencem ao mundo todo e até por isso conseguem estabelecer uma harmonia mais sincera com o local. Voltando ao meu caso, e à porção final da tua questão, as leituras que me guiaram em direção a “O deus das avencas” provavelmente foram mais da área de filosofia e não ficção em geral. Ecologia, biologia, crítica do pós-humanismo. Em combinação, claro, com as leituras de ficção, nas quais passei a perceber uma certa redundância nas narrativas mais realistas ou mesmo confessionais, que não as invalida como boa literatura, mas que em contraste iluminava o quanto havia de relevante, para imaginar nossas possibilidades nesse momento da história, na ficção científica, na fantasia, no horror, na alegoria.

FAS: Tem um momento muito significativo e que me impressiona muito na construção da comunidade daquela última história, que é a maneira como a Chama passa por cima daquilo que os seus iguais fizeram com ela e volta a unir forças com eles sem ressentimento assim que a necessidade chama. Tu acha que essa conciliação, esse perdão irrestrito, é o único caminho possível?

DG: Conciliação, sim, embora eu não pudesse chamar isso de “perdão irrestrito”. Ao ser excluída pela maioria da comunidade, Chama se percebe na posição especial de arriscar o que antes não parecia possível, transformar aquela realidade que tinha entrado em crise. Ela retorna em grande estilo e diz de maneira muito sucinta e direta que vai precisar de todo mundo, mesmo daqueles que a hostilizaram, que erraram. Não acho que seja uma mensagem de perdão, e sim a ideia de que só podemos melhorar a vida social se avançarmos juntos apesar dos erros e discordâncias, que a coragem e a fé necessárias pra algo assim requerem que carreguemos na bagagem inclusive a hostilidade, a intolerância, as fraquezas. O final dessa novela é um tanto brusco, e minha intenção era deixar estampada essa sensação de futuro possível, mesmo que os detalhes permaneçam obscuros. Nas três novelas, creio que há esse padrão: de uma crise brota o reconhecimento de um futuro possível, difícil mas não necessariamente catastrófico, desde que se observe alguns valores e premissas básicas de comunidade, afeto, tolerância. Ou que se pense fora dos hábitos de sempre.

FAS: No mais, me indica um livro?

DG: Acabei de ler “O riso dos ratos” do Joca Reiners Terron, é duríssimo mas muito bom.

felipe andré silva

é cineasta e poeta.