resenhas

sobre todos os homens medíocres

DOMENICO STARNONE CONSTRÓI EM “SEGREDOS” UM RETRATO DE UM HOMEM QUE RECOLHE SEUS IMPULSOS E ABRE MÃO DE SONHAR POR MEDO.

identidades, masculinidades, comportamento

Primeiro relato
Pietro sempre agiu como um homem comedido. Ciente de suas limitadas possibilidades no mundo, preferiu ter desejos médios e realizáveis a lidar com as frustrações advindas do fracasso. Se era imperfeito até nas pequenas coisas de uma vida pequena, imagine o que teria sido nas grandes coisas de uma vida grande. Acostumou-se a sonhar baixo.

Professor numa escola da periferia de Roma, escreveu um ensaio propondo um novo tipo de educação, mais alinhado ao novo século, que ganhou certa relevância. Foi chamado para palestras, mesas-redondas, lançamentos de livros, discussões, entrevistas. Apareceu nas mídias de diversas cidades na Itália. Suas palavras deixaram claro seu interesse numa renovação da educação — era preciso eliminar a desigualdade em sala de aula, eliminar a ideia de um ensino massificado, eliminar hierarquias que fazem com que uma pessoa sonhe o sonho de outra — e isso foi logo transferido para sua personalidade. Passou a ser reconhecido por qualidades fundamentais, como a nobreza de coração e a inteligência sutil.

Contudo, um evento do passado o atormenta. Um acontecimento sujo. Esse segredo feio foi guardado apenas por Teresa, uma ex-namorada com quem teve um relacionamento turbulento, cheio de exigências nunca satisfeitas e tensões que terminavam em insultos, choros e mordidas. O medo de que ela o exponha e de que toda a sua carreira seja ruída o consome. Acaba recorrendo a ela depois de anos, tentando estreitar os laços, uma espécie de renovação implícita de um pacto de confidência. Uma parte não desprezível de Pietro temia que o dique cedesse e suas escórias descessem em enxurrada.

Não é a pedagogia do afeto que nos melhora, mas a pedagogia do assombro.

segredos

segredos

Domenico Starnone

TRADUÇÃO
Mauricio Santana Dias

PÁGINAS
152

EDITORA
Todavia

Segredos, terceiro romance de Domenico Starnone publicado no Brasil, gira em torno desse protagonista. Não espere a revelação do tal segredo feio, nem uma narrativa com suspense, clímax e pontos de virada. O desenvolvimento do escritor passa, na verdade, por mostrar os relacionamentos e questões de um homem comum, sem grandes ambições, que declama grandes propostas para o fim do status quo mas se contradiz ao tentar manter a todo custo sua própria relevância dentro de um grupo pequeno de professores e num casamento médio; um homem com um olhar apurado para questões sociais mas quase cego para o micro, a própria família, os colegas.

O desejo de obter e de conservar a atenção do público faz Pietro procurar se tornar, ao longo da história, não só convincente, mas até envolvente. A cada exposição oral, suas ideias ganham mais força. A cada crítica que surge da plateia, suas respostas se aprimoram com uma ironia cordial, que agrada. Ele aprende as fórmulas que causam boa impressão no público e as reutiliza tão logo se apresente a ocasião. Habitua-se a um precário equilíbrio entre o que gostaria de ter sido — incontestável — e o que realmente era. 

Entretanto, seu legado para o mundo não vai muito além disso. Suas propostas vão sendo discutidas mas nunca passam para a prática. Tudo que critica continuou exatamente igual, a tal revolução jamais acontece. Seu nome vai sendo esquecido nas grandes premiações de educadores nas décadas seguintes. Quando muda o narrador, percebemos que sua vida medíocre foi maximizada por seu olhar exagerado. Suas histórias só importaram a ele mesmo. E, mesmo assim, por sempre ter tido uma tendência à perfeição, nem Pietro conseguiu gostar tanto assim de si mesmo.

Falei: tenho aqui comigo uma lista de pseudoprofessores preparada por vocês. É uma vergonha, está faltando Pietro Vella.
O papagaiozinho do outro lado me perguntou: quem é Pietro Vella?

Segundo relato
Qual o lapso, o buraco, o vazio que existe entre o que desejamos ser e aquilo que realmente somos?

Pietro se reconhece no romance como um vanguardista, um pensador que conseguia revelar os escombros sobre os quais a sociedade se ergue, alguém que enxerga com profundidade o painel social da Itália. Contudo, não consegue perceber os defeitos de seu relacionamento nem realizar nenhuma de suas ambições de disrupção dentro da própria casa. 

Nadia, sua esposa, num primeiro momento, é apontada como uma pesquisadora com uma carreira científica promissora. Depois, vai se tornando uma dona de casa com três filhos e uma carga enorme sobre si.

Nas coisas que Pietro escreve, em suas andanças por aí, em seu sucesso, em seu exibir-se, receber cumprimentos e ser festejado há um monte de tempo de Nadia. É a esposa quem passa suas camisas, cozinha diariamente e tira a mesa. Quando o escritor precisa levar a filha pequena para o trabalho, é aos cuidados de uma aluna que a garotinha fica enquanto ele dispara suas reflexões para os homens na sala de aula. Consumido pelos convites do meio literário e educacional, o protagonista aceita viajar para qualquer cidade, sem se importar com os compromissos acadêmicos da esposa.

A gente se apaixona por pessoas que parecem verdadeiras, mas não existem, são uma invenção nossa. Uma coisa é a pessoa amada, outra é a pessoa real que, enquanto a amamos, nunca vemos realmente.

Aos poucos, vítima de um orientador com um perfil parecido com o do marido, Nadia abandona o sonho de trabalhar numa universidade — e se ressente por isso. A estafa e as reclamações de Nadia não ganham muita visibilidade durante o romance e ela nunca toma a narrativa para contar suas dores. Em poucos diálogos, o que ela diz não surte nenhum efeito.

No casamento, Pietro também utiliza um conjunto de fórmulas e rotinas de modo que as discussões não se acumulem. Fazia apenas perguntas suaves e não entrava em assuntos escabrosos. Pressentia que, se gerasse a fúria ou o desgosto ou a humilhação da esposa, a conversa se estenderia por longos minutos, entraria pela noite e pelo dia seguinte, e viriam choros, gritos, enxaquecas, sondagens, fragilidades e uma enorme onda que os arrastaria. Mais do que prejudicar seu casamento, sentia que as brigas poderiam prejudicar seus mil compromissos públicos, seus debates, viagens, estudos. 

Todos esses silêncios e reclamações sem sentido são fundamentais para que Starnone construa esse perfil do homem medíocre que gosta tanto da ideia de si que está construindo que evita a todo custo estragá-la com qualquer equívoco, embaraço, inutilidade ou pequenos prazeres ocasionais que parecem pertencer à vida insatisfeita que tinha na sua juventude. Ao longo das páginas, Pietro vai aprendendo a emular uma autoridade e uma maturidade para ser aceito em seu meio, para sobreviver entre pessoas de reconhecida inteligência e notoriedade. Cada passo é medido para jamais pisar em falso.

Terceiro relato
No princípio, até Pietro precisava admitir que a impressão é a de que ele estava imitando alguém, um personagem de um romance, um herói de cinema que ele já havia esquecido, uma pessoa real com quem ele topara na infância por poucos minutos e que o marcara. O leitor duvida, não se sabe se, em algum momento da narrativa, pode dizer que esse olhar e essa inteligência eram realmente propriedade do personagem. Muito bem, quem diria, um homem tão egocêntrico e tão pouco sensível está perdendo a rigidez, se tornando mais suave?

Esta enorme vontade de não parecer mau, feio, sujo, de não ter seus desejos revelados por Teresa o persegue ao longo de todo o romance. Starnone cria um protagonista que está o tempo inteiro fugindo de si mesmo, de suas reais vontades e sentimentos, ao mesmo tempo em que exagera tudo que os outros tipos à sua volta são, sentem e vivem. Pietro sabia que podia se tornar mau e ser visto como alguém que faz coisas ruins. Por isso, corre atrás da bondade a todo custo, ignorando o que sente, se expondo pouco ao risco, colocando seu foco em ninharias. Não sabe o que fazer com o amor seráfico, o amor que conforta, o amor que toca os sinos, o amor que purifica, o amor patético: sente tanta estranheza que afasta essa palavra de um livro sobre casamento e relacionamento.

Narrar significa mentir. Narra melhor quem mente melhor.

Sem grandes revelações e reviravoltas, este livro é feito da vida comum de um homem médio, que aspira uma perfeição tão gélida, tão inflexível que se sente mau ao menor desvio. Que, mesmo com tanta idade, não entendeu que se tornar adulto é de fato renunciar a sermos perfeitos. Age como se viver fosse manter longe a infelicidade.

Pietro sabe que vai relatar seu mal-estar por escrito às instâncias competentes e não será lido, que denunciará as condições de trabalho dos professores e ninguém mudará nada a respeito. Essa máscara de denúncia favorece a identidade de si que criou para os outros, do mesmo jeito que o papel de impotência mantém as coisas como estão, o que diminui seus riscos e acalma seus fracassos.

E, enquanto isso, a vida vai passando nessa espera, e passa cada vez mais rápido, e a vida desfila à nossa frente ano a ano, e o fundo do poço nunca chega realmente. No pior dos casos, não tem fundo.

andre aguiar

é jornalista e pesquisa literatura brasileira contemporânea.