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memórias afetivas e outros crimes sem culpados

LER UM LIVRO POLICIAL NESSES TEMPOS DIFÍCEIS ME FEZ SUSPENDER A DESCRENÇA QUE SURGE DA MATERIALIDADE DA NOSSA VIDA EM SOCIEDADE E RECUPERAR UM SENTIMENTO INFANTIL.

memórias, infância, subjetividades

Não chove em Kiewarra há dois anos.

Esse caos ambiental dificulta todas as relações nessa pequena cidade que vive fundamentalmente da agricultura. Diversas famílias começam a passar por dificuldades financeiras e, sem nenhuma previsão de que a natureza voltará à normalidade, se mudam e deixam colegas para trás. A seca também promove um forte processo de especulação imobiliária, com grandes investidores fazendo propostas indecentes aos fazendeiros da região, oferecendo preços baixos sabendo que conseguirão reverter o estado das terras secas com tecnologia importada. Com a arrecadação de impostos baixa, serviços fundamentais, como a escola infantil e a manutenção dos lugares públicos de recreação, se tornam refém de doações de milionários e abastados. As preocupações também acirram as disputas entre vizinhos, já que o estresse gera mais conflitos e menos tolerância.

Entre tudo isso, Luke Hadler assassina a esposa e o filho de seis anos de idade e se suicida logo em sequência. No rastro de poeira e sangue, ficam algumas perguntas, como “por que ele não atirou na bebê?” ou “como ninguém percebeu naquele homem os sinais de loucura e desespero que acometeram outros fazendeiros nos últimos anos?”. Desconfiado, o policial Aaron Falk, amigo de infância de Hadler, tentará remontar a cena do crime e revirar o passado de Kiewarra para descobrir se o que aconteceu foi ou não uma armação.

A morte raramente muda como nos sentimos sobre alguém. É mais comum que acentue o sentimento.

Gosto de como certos livros me transportam quase automaticamente para outras temporalidades, para lugares de uma memória afetiva. Foi começar a me envolver com a história, aquela cidade do interior da Austrália, a seca tomando conta dos campos, os segredos desertificando as possibilidades de relações, que me enxerguei onze ou doze anos antes.

Deitado, barriga para baixo no colchão, intrigado com a trama estranha que Harlan Coben dispunha à minha frente. Como é possível que aquela mulher que morreu há mais de década aparecesse numa câmera de segurança? Quem é a pessoa que sabia da tradição desses dois amantes, o hábito de cunhar um risco na mesma árvore todos os anos na data do primeiro beijo, e agora se passa pela mulher assassinada?

As fantasias infanto-juvenis que eu havia lido nos meses anteriores tinham lá suas tramas de filhos perdidos, pessoas com identidades roubadas e enigmas de vida ou morte, mas nenhuma delas tinha mobilizado esses sentimentos que me tomaram ali. Era o primeiro livro adulto que lia, eu me sentia espiando lugares que ainda eram proibidos, escutando episódios que não me pertenciam.

E, por mais que tivesse prestado atenção nos diálogos, nas perseguições, nas revelações que cada personagem fazia àquele marido, investigador tão inapto quanto eu, ao fim, fui tomado por um ar de contentamento e surpresa. Talvez tenha sido aquela história o que me fez procurar, em todos os livros que se seguiram, essa mesma sensação de espanto.

A seca

a seca

Jane Harper

TRADUÇÃO
Claudia Costa Guimarães

PÁGINAS
368

EDITORA
Morro Branco

Como é costume nos livros do gênero, em A Seca, de Jane Harper, conforme as investigações avançam, também percebemos que o conflito se alicerça num passado longínquo dos personagens. Na adolescência, Ellie Deacon, uma amiga de Hadler e de Falk, havia se suicidado também. Seu corpo encontrado num rio que não existe mais.

Na época, a amizade dos três foi abalada pela chegada de uma nova moradora na cidade, Charlotte. Entre os sentimentos inconstantes da adolescência, Ellie parecia estar sendo trocada, deixada de lado pelos garotos. Seu desconforto e tristeza eram evidentes demais, o que rendeu fofocas de que Hadler e Falk eram culpados ou estariam envolvidos na sua morte. Nada se confirmou, mas os rumores logo voltam a perseguir o único sobrevivente do trio.

Acompanho os personagens em suas conversas íntimas. Todos olham com nostalgia para o passado, adicionando mais cor e saudade às cenas da juventude, e confessam suas frustrações com a vida adulta, especialmente prejudicada por uma cidade onde nada mais floresce. Aos poucos, vão surgindo pistas que criam uma trilha de abuso psicológico, depressão, traições, vícios, apostas, relacionamentos escondidos.

Se eu soubesse, teria feito as coisas de maneira diferente. Agora era tarde demais para isso. Com algumas coisas, a gente tinha de conviver para o resto da vida.

Tento ir juntando as peças do quebra-cabeça e me sinto caminhando por aquelas terras inférteis, observando detalhes que podem incriminar uma ou outra pessoa. Curiosamente, Kiewarra se torna um refúgio para meus problemas. Aqui, deixo de ouvir os choros, discussões e reclamações que estão do lado de fora do quarto. Ignoro meu coração acelerado e ele vai se acalmando. Fico de bruços na cama, a mesma da minha infância, e pareço diminuir de tamanho.

É um retorno a certa inocência. Pelo menos ali eu sei que posso contar com um final bem estruturado, onde tudo se encaixa e nada fica de fora. Se na vida real a desigualdade econômica desequilibra as chances de alguém tenha acesso à justiça, na literatura policial esses fatores pouco importam. Todos os segredos são descobertos, os atos criminosos são condenados, as vidas perdidas são honradas. Desde o início da leitura sabemos que o que causa insegurança ou medo vai acabar nas páginas finais e poderemos dormir tranquilos, pensando que pelo menos em algum lugar tudo está em ordem.

Confiar nisso, suspender a descrença que surge da materialidade da nossa vida em sociedade, é parte da experiência de leitura do gênero.

Nas últimas páginas, meus olhos passam a correr. Algumas das minhas desconfianças se confirmaram e, no contexto atual, prever o que estava para acontecer ou descobrir uma verdade antes do policial protagonista não me decepciona. Recuso-me a discutir novamente aquela história de fórmulas prontas, uma forma de escrita acima da outra, o que é ou não é literatura… Apenas expresso com meu corpo a urgência das cenas de ação vividas por Falk no fim da história, antes de me afundar em segredos que nenhum personagem conseguiu ter acesso. São parte do que Jane Harper compartilhou apenas com os leitores.

Sorrio para o desfecho e resolvo reler algum dos livros que me introduziram nesse gênero na minha adolescência. Um deles virou conversa com a única amiga que ainda me acompanha até aqui. O outro me fez companhia numa casa de praia para onde eu jamais desejei ir. Reviro o armário onde minha mãe deixou algumas coisas da minha infância, dezenas de livros cujos títulos não dizem mais respeito a mim.

Gasto um bom tempo com aquelas memórias desconhecidas. Não encontro aqueles que desejava. Não é mais possível voltar àquele lugar.

andre aguiar

é jornalista e pesquisa literatura brasileira contemporânea.