as redes sociais foderam com a minha vida
luiza s. vilela

7letras

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▶ ai, feliz demais com essa evolução pro chameguinho! nunca vou entender esses homens que chegam, fodem e já vão embora, esse negócio de aplicativo, só fiz isso em casos extremos e mesmo assim me senti horrível.

▶ eu até tentei mas eu não tava funcionando direito no home office não, daí tô indo todo dia pra lá. se você quiser a gente divide uma mesa. mas só se a gente se prometer não ficar se mostrando meme toda hora, porque meu prazo já está apertado.

▶ ai, amiga, sério, eu fico puto porque ele some por três dias, não me manda bom dia, boa tarde, nada, daí aparece com uma mensagem qualquer, totalmente aleatória, e eu caio, sabe? fico aqui respondendo sorrindo igual um bobo. ai, sério. estressado por estar estressado. BOM DIA.

▶ pode julgar mas não aguento. eu disse que não ia mais, mas tava pensando em chamar ele pro cinema. você acha que eu vou ou? ai, vou chamar.

▶ então, amiga, esse poema aí que eu te mandei na foto na verdade é um trecho de poema. bateu né. a gente tava falando disso esses dias, de como a gente tá sempre disponível pros outros, esse negócio de responder rapidamente, ansiedade, não sei o quê. lembrei de você na hora por causa da história com sua ex-chefe.

> chama “as redes sociais foderam com a minha vida”. e a autora é luiza s. vilela. é uma plaquete, na verdade. tipo umas 20 páginas. esse titulo é meio clickbait, assim, meio exagerado, e eu até gosto porque ela vai meio que comentar ou criticar, num sei, essa estética da internet, né? sei lá, tem uns poemas sobre essa artificialidade, de como é tudo cuidadosamente construído, o filtro, a pose, o não sei o quê. a gente fingindo que é tudo espontâneo, mas tirou a mesma foto 20 vezes pra ver qual ficou melhor. esses hábitos que foram sendo criados pelas redes sociais, a internet, não sei o quê. tem um poema sobre o dia que saiu a primeira imagem de um buraco negro na mídia, só que dois dias antes estava rolando um dos maiores temporais da história do rio de janeiro, daí ela transmite bem essa sensação de que a gente nem consegue digerir uma coisa e já tá rolando o feed pra próxima grande novidade imperdível que você tem que dar like, tem que comentar. é de 2019, então eu acho que as dinâmicas de consumo nesse tempo ainda eram outras, pelo que me lembro, mas fico pensando em como hoje em dia ainda tudo é ainda mais lotado de propaganda do que quatro, cinco anos atrás. daí é meme autodepreciativo, publicidade, selfie de um cara na academia, publicidade, a notícia misturada com uma coisa que você tem que ter, tem que comprar, porque eles roubam seus áudios e estão escutando esse áudio exatamente agora. é, e fala muito de amor também. de como é flertar nesse tempo, como flertar é sempre perder um jogo, todo mundo tá aí com quatro, cinco pretendentes ao mesmo tempo. e a palavra falada mais do que nunca sendo usada, fora emoji, né? tem até uma comparaçãozinha com mostrar o decote meio despretensiosamente pra flertar com alguém que virou saber administrar o uso de emojis, sabe? tipo, como reagir adequadamente aos stories, como dar uma entonação safadinha pra uma frase que poderia não ser. enfim, e nem é julgando, sabe? é mesmo um retrato dessa geração que é tanto desconectada de si mesma, perdida ali no feed, quanto dos valores de uma geração passada, que ainda defendia certa aura. é um livro pós-eleição também, né? pensei isso agora, esse conflito. nossa. isso significa muito. bateu. enfim, vou te mandar o perfil dela pra você seguir.

> amiga, tenho uma fofoca, pera.

 

as redes sociais foderam com a minha vida
de luisa vilela
foi publicado pela editora 7 letras
em 2019.
um livro para quem gosta de observar fenomenos astronomicos, perder tempo com besteira, stalkear parentes do crush, postar foto de comida, flertar e perder.

 

▶ ei! eu estava passando aqui em frente agora, daí já comprei as duas entradas pra sessão das 21:30, tá? aí a gente não pega fila na sexta e escolhe um lugar melhor. e foi tudo bem na reunião, sim. quando eu chegar em casa eu te conto melhor tudo. beijo.