quando jô caminha pela sua cidade, ela vê corpos sem gente dentro. desde menorzinha, ela olhava os cadáveres que nadavam no córrego que passava atrás de sua casa. ficava encarando aqueles corpos vazios tentando entender algum segredo que fizesse ela não morrer nunca. se intrigava com aquilo tudo, aquelas pessoas enroscadas nas plantas aquáticas, brigando com as folhas para passar pelo riozinho.

e aí vinha a pior parte. era daquele córrego que a mãe pegava água para cozinhar, limpar, aguar. e a menina bebia o chá da mãe imaginando a alma daquela gente descendo pela sua garganta. era chá de alma de gente que não presta. porque só alguém que não presta poderia deixar o proprio bicho por aí, deixar o próprio corpo ficar largado no córrego. e aí ela apertava o próprio corpo com mais e mais força, pra ele não ir embora com o susto diante daquele absurdo. daquele tipo de gente que se enrosca por aí no quintal dos outros. daquele tipo de gente que morre.

meu corpo ainda quente, da sheyla smanioto, é esse livro sobre corpo, sobre morte, sobre alma, sobre pertencimento. segundo romance de uma autora que já revirou toda a terra, toda uma cidade na história “desesterro”, e agora continua seu projeto de vida, seu projeto estético com outra narrativa sensacional.

esse romance inteiro é construído com essas palavras abertas, significados que que expandem a cena e abrem pro poético. em nenhum momento, por exemplo, o livro utiliza a palavra ditadura, autoritarismo, fascismo ou qualquer outra desse campo semântico – mas a gente percebe que existe corpos que desaparecem sem deixar rastros, existe um medo de ser enterrado como indigente e, logo ali, nos primeiros parágrafos, existe uma constatação estranha de que naquele mundo os livros foram enterrados junto a raízes das plantas, como se eles precisassem ser escondidos, fossem ilegais.

toda essa escrita forma imagens das quais a gente nunca vai embora, como um corpo aberto como se fosse revista ou a menina que sufoca embaixo do peso da mãe.

esse vocabulário, a construção textual colabora muito com a atmosfera que é simultaneamente desvendada enquanto a gente está lendo como distopia e como conto de fadas. existe uma crença no mágico, naquilo que está além do físico, mas, ao mesmo tempo, uma atmosfera de violência coloca as questões do corpo em evidência.

é o corpo jogado no rio, o corpo boiando no córrego, o corpo duro e quieto, o corpo que libera fluidos, que vira sangue, que cospe insetos, que é convertido em prazer, que vira lágrimas salgadas. mas também é o corpo ancestral, que sabe viver na terra, que veio antes das almas, que sabem de tudo e tentam contar segredos nos sonhos.

é o corpo que precisa ser domado, como um bicho selvagem. porque corpo tem que prestar, ou entao irá morrer. um corpo de mulher que é enxergado como um lugar de desconforto, porque o corpo da mulher não é dela. é essa a grande afirmação que vai desencadear as ações desse romance. no mundo inteiro é assim, mulher nenhuma tem o próprio corpo. jô aprende logo cedo que ser mulher é não ser dona do próprio corpo, é ter seu corpo tomado por um homem a qualquer momento. com apenas um olhar, a mulher é perdida de si. mulheres são apagadas com a ponta dos dedos, mulheres tem seus desejos entortados e torcidos. ser mulher é ficar pendurada, com medo de cair, o tempo inteiro. é ter que viver num canto do próprio corpo, porque ele foi ocupado por um homem, e, para aquela mulher, só sobra a loucura ou a morte.

nesse momento, a jô vai repartir sua vivência com duas personagens distintas. a mãe tenta confortar a filha dizendo que só morre quem não presta, que no momento certo a filha saberá o que fazer para que jamais vire louca, que jamais abandonaria a filha. na presença de homens, a mãe chama jô de joão, para esconder a identidade da menina, não dizer que um dia ela irá se tornar mulher, que um dia será servida, assada, comida. a mãe ensina que mulheres concordam, falam baixo, ocupam pouco espaço. a mãe tenta proteger a filha do mundo que a filha vê do quintal, enquanto a amiga da mãe, hilda, apresenta o mapa de queimaduras e furos de cigarro na própria pele. é uma visão mais fatalista de mundo, a visão de uma sobrevivente, que soube encontrar o caminho de volta pra si, puxando o fio do carretel do coração. ela relativiza o que a mãe de jô diz, contando que a morte não é questão de prestar ou não prestar. que todo mundo morre, a violência é incontornável. mas ter uma vivência única, acumular experiências mesmo que sejam cicatrizes, são o que fará a vida valer ou não a pena, é o que fará a diferença entre ser enterrada com nome ou como indigente.

o livro também apresenta duas visões possíveis sobre o masculino, refletindo um pensamento difícil de romper em relacionamentos heterossexuais. a jô vem de um lugar onde os homens devem ser temidos, onde os homens tomam as mulheres para si, onde os homens nomeiam o que as mulheres sentem sem ouvi-las. o próprio pai de jô, quando ela estava disfarçada de joão, ensinou a ela qual a utilidade do corpo das mulheres. quando a jô, então, se apaixona por um homem, ela hesita: ela pode confiar nele ou ele é só mais um que irá fazê-la desaparecer?

durante o romance, a jô vai tentando se apegar às esperanças que ela encontra, vai colecionando frases que vão e voltam no texto que servem de ensinamento e guiam seus passos. ela tenta a todo momento prestar, para não morrer. e tenta entender qual história precisará contar para encantar seus ossos e dar paz pro seu corpo. para isso, ela vai precisar encontrar força em si – entender seu próprio corpo e sua própria potência – , forças nas outras mulheres – abdicar da culpa antiga que elas carregam por séculos – , e força nas palavras – palavras de mil anos mil mães mil filhas mil avós, palavras de quando esse corpo começou.

a cada palavra, sheyla smanioto invoca a palavra de outras tantas e tantas mulheres desse e de outros tempos, escreve o que escreve na superfície de todos esses corpos. a cada ponto, meu corpo ainda quente ressoa o burburinho de mulheres antigas. sheyla escreve e seu corpo concorda com sua alma. esse livro, esses contos de fadas são histórias para que mulher nenhuma precisem ter apenas metade do seu próprio tamanho.