chifre é coisa de bicho forte. bois, veados, rinocerontes, búfalos, todos os bichos usam os cornos como arma para se proteger dos inimigos ou então nas lutas com outros animais da sua espécie. para além da função de defesa, os chifres também podem ser usado como forma de reconhecimento social, de distinção, apresentação na hora da disputa pelo sexo e pelo território.

mas em humanos começaram a entender que chifre é coisa ruim. chifre é coisa do demônio, é do mal, é maledicente, encardido. ou, por outro lado, é coisa de quem foi enganado, trouxa, sofredor.

daí tem aquela expressão, pegar o bicho pelos cornos. é o mesmo sentido de tomar a rédea da vida, assumir o controle das coisas. o que adelaide ivánova faz aqui é justamente isso: pensar o controle dessas narrativas todas.

chifre é um livro sobre enfrentar o desgoverno, planejar uma prática política que repense os lugares de todo mundo e atinja de volta aqueles que estão confortáveis nos seus lugares burgueses por anos. já deu de sentir dor nas nossas costas, então é o momento de cutucar uma estrutura desigual com o pé nas ruas, nos movimentos sociais, nos sindicatos, nas reuniões de partidos – e começar ali também a dar seus gritos. é transformar a raiva em esperança, pra imaginar um futuro sem mulheres linchadas chamadas de bruxas, sem trabalhadoras domésticas menores de idade, sem mais nomes de machos que engrandeçam a lista enorme de agressores jamais responsabilizados.

também é um livro que repensa o próprio papel da poesia. é uma poesia meio sem lugar, com sua metade estrangeira, tentando se encontrar num mundo onde a arte parece cada vez mais deslocada. como escrever em meio a tanto cansaço? como se faz arte que tire o desespero de dentro? dá pra escrever poesia sem fé? pra cada pergunta, um novo bloqueio criativo, uma nova trava, um monte de rascunhos inacabados? sim. mas também o desejo de tomar o controle e escrever um livro ousado e escalafobético que se direcione ao futuro.

porque pra pensar o futuro é necessário duvidar e tomar umas até acertar. fechar uma porta e abrir outra. abandonar alguém pra sofrer lembrando. lembrar de quando se atiraram copos e olhar pras cicatrizes que ficaram com algum mínimo afeto que seja. só se troca uma esperança se for por outra. porque planejar uma revolução é tentar de novo, mesmo que um monte de chifre já pese a cabeça. porque tanto o chifre quanto o amor são coisas de gente teimosa.