anja está completando quarenta anos de idade. ela sempre esteve acostumada com a solidão e pensa viver hoje sua melhor fase. nunca se casou e vive no melhor apartamento de um prédio, um apartamento comprado com o próprio dinheiro, decorado com seu próprio trabalho. é um apartamento imenso, com um carpete áspero e azul, tomando conta de todos os cômodos e corredores. quando ela cantarola, as notas se espalham pelos ambientes a acústica os retorna em forma de cócegas no seu ouvido. grandes janelas, livros espalhados, um cinzeiro estampado com flores coloridas, móveis comprados de segunda mão, em vendas de garagem, porque todos sabem que as coisas realmente elegantes só foram feitas no passado. se ela olhar bem, de um ângulo específico, a varanda até se transforma num quintal. ela nunca esteve tão bem, até que recebe uma ligação da mãe, pedindo para ir morar com ela.

esse é um jeito possível de explicar o que acontece em “nem sinal de asas”, de marcela dantés. essa é uma história de muitas portas e entradas, mas escolho essa pra começar a explicar o sentimento que talvez mais perdure na narrativa, que é essa valsa da protagonista com a solidão. anja não é alguém triste, pelo menos não na medida em que as pessoas a imaginam. ela é alguem consciente de seu lugar no mundo, que sofreu muito e aprendeu a desejar muito pouco… e, depois de conquistar aquilo que um dia quis e agora convive perfeitamente num apartamento grande com apenas seu gato.

essa posição ativa em relação à solidão fica bem clara até pela escrita da marcela dantés. é uma escrita que dança, cheia de sonoridades bem escolhidas, um ritmo próprio, uma cadência quase feita pra ser lida em voz alta. mais do que o cuidado em narrar essa história que poderia ser dura demais ou apelativa demais, dependendo de quem a contasse, marcela destina em cada palavra um apreço grande, é realmente um som que se espalha pelos parágrafos às vezes de uma frase só. são palavras que fluem rapidamente, frases que ressoam entre si, assuntos que se mesclam formando delírios como um remédio forte, momentos em que a narrativa fica entalada como uma bola na garganta.

essa calma e essa paz é rompida quando a mãe avisa que está sofrendo de uma doença grave, precisa de cuidados e não pode mais viver sozinha. dulce perdeu o marido quando anja tinha apenas quatro anos e, desde então, foram só as duas no mundo. esse conflito, essa relação complicada entre mãe e filha, é narrada de uma forma bem poderosa, onde ficam evidentes as dores das duas mulheres e como cada uma lida com a vida de forma diferente.

dulce é impositiva, ativa, sempre desejou mudar de vida, alcançar aquilo que ainda não tinha – e, para isso, pressionava a filha a seguir o caminho que ela havia planejado em direção à riqueza e a um status social. para além de anja escolher uma vida quase mediana, um caminho que precisou seguir pra longe da mãe, por causa de um nível de abuso psicológico, o relacionamento das duas ainda é dificultado por uma questão racial.

anja é negra, filha de uma mãe branca que a escondia dos outros, acreditava na menina quase como um castigo, um erro. proíbe a menina de frequentar a escola, esconde ela da vista de muitas pessoas, entra num desespero tremendo não sabendo lidar com essa diferença entre as duas. inclusive, ainda bebê, anja vai sofrer uma tentativa de embranquecimento. dulce fazia testes e passava na pele da criancinha uma fórmula errada que leu numa revista, e isso levou a pele de anja a ficar manchada para sempre. sempre escamando, criando bolhas, por toda a vida.

esse é um segredo que só a gente sabe, pela narração da marcela. é um fato que a própria anja desconhece mas que determinará boa parte da sua vida. das piadas no ambiente escolar, do medo de se relacionar, da timidez que vai criando, das cascas que a vida lhe oferece. são coisas irracionais, sentimentais, quando a gente pensa que ela sempre foi preterida e por isso foi aprendendo a ser uma pessoa sozinha, mas também é narrado como algo físico. quando anja sente calor, quando anja sente febre, quando tudo esquenta, as bolhas vão aparecendo de volta na superfície da sua pele, o que causa uma dor tremenda na personagem. isso faz ela rejeitar, por exemplo, o desejo sexual ou a paixão, pelo menos em alguns momentos. esse contato humano que arrebenta a pele da anja é um jeito bonito e triste ao mesmo tempo de narrar essas violências que ela sofre, a reclusão onde ela vive. é uma forma de deixar ainda mais dolorosa a evidência de como uma pele diferente arrasa, dificulta e define vidas.

essas outras perdas também vão aparecendo na narrativa aos poucos, como a perda de um melhor amigo, a perda do domínio sobre o próprio corpo, a perda do único vizinho que a visitava… a narrativa passeia pelo tempo, mostrando um pouco da infância, da juventude, da evolução da doença da mãe, o relacionamento com o gato, o desenvolvimento de um vício… ela vai lidando com a própria independência, vai aprendendo a viver a própria vida, ignorando as ordens da mãe, fugindo das responsabidades com essa outra mulher sozinha. nesse processo de ir e vir, voltar ao passado já sabendo parte do futuro, a gente vai percebendo como a tragédia já está anunciada.

entre os capítulos, a gente vê um outro narrador comentando sua relação com anja – uma relação que passa por um segredo que finalmente pode ser revelado. anja está morta já faz cinco anos. eu não vou revelar aqui o motivo da morte de anja, como seu corpo é encontrado, como o relacionamento com sua mãe se desenvolve, o que acontece com seu apartamento de luxo quando ela finalmente o deixa aos quarenta e poucos anos… porque eu realmente indico a leitura e sinto que algumas pessoas vão preferir encarar esse livro sem saber todos os detalhes.

o fato é que algumas dessas informações são reveladas logo nos primeiros capítulos e importam muito pouco, de fato. a grandeza desse romance, que ainda por cima é um romance de estreia, não está nas viradas da narrativa, nem resolução dos mistérios. sua beleza está realmente na forma com que é contada essa vida de alguém que fez muito pouco barulho, foi conhecida por poucos, passou despercebida pelos locais que entrava e saía. é a prova de que qualquer pessoa consegue render uma boa história, apenas precisamos ter um ouvido, um olhar e o toque dos dedos atentos para sentí-la. seja essa pessoa uma mãe sozinha, um adolescente curioso, um porteiro irresponsável, uma mulher em inesgotável solidão, uma anja sem sinal de asas.