fique onde está e

ㅤㅤ sofra,
saia daqui

ㅤe se afogue

em “mundo real”, brandon taylor apresenta o ambiente acadêmico como espaço de solidão, violência e desigualdade.

Este verão ele tinha se sentido esperançoso.
Pensava que finalmente estava realizando algo.
Mas era só ajustar o foco da objetiva para ter a certeza de que não, ele sempre soube que havia algo o espreitando.

O cheiro na sala é o cheiro típico de um ambiente climatizado, mas existe um fundo acre que vem de uma das amostras que Wallace analisa no microscópio. Há mofo, amontoados de bactérias e, o mais preocupante, ovos mortos. Até há certa quantidade de minúsculas larvas, ainda com vida, persistindo nas placas de plástico, mas a quantidade delas é menor do que ele esperava. O mofo parece ter tornado aquela linhagem estéril, aquela combinação genética parece ter produzido uma série de organismos inviáveis.

Nesse fato pode haver uma resposta para as perguntas de sua pesquisa, porém, essa morfologia incomum também pode ser resultado de uma contaminação acidental. Pode ser que já houvesse um problema subjacente antes de a tragédia acontecer. Uma calamidade invisível em torno desses seres microscópicos, uma outra no entorno das personagens de Brandon Taylor.

mundo real
brandon taylor
tradução de alexandre vidal porto

fósforo
296 páginas

Mundo real, primeiro romance do autor estadunidense, opera entre esses dois universos, os visíveis e os invisíveis, para falar de dor, violência, comunhão. Ambientada numa universidade, a narrativa explora como o espaço acadêmico adoece, constrange, atinge pessoas não-brancas, solitárias entre tantos privilegiados. Wallace, o protagonista, é o único negro na sua turma seleta de pós-graduandos em bioquímica. Quando a história começa, perdeu o pai há semanas, mas ainda não conseguiu contar para nenhum de seus colegas ou professores – não viajou para as cerimônias, não pediu folga de seu trabalho no laboratório, não compartilhou sua dor com amigo algum, ciente de que todos estão menos dispostos a ouvir Wallace do que a falar sobre si mesmos. Nessa fase da vida, ele já não sabe se gosta de ficar sozinho ou se só suporta porque não tem outra opção.

Não tinha forças.
E aceitou o convite e foi para o lago.
Mas dentro, dentro, dentro, é possível notar que ele não saía com os colegas porque nunca sentiu de verdade que sua presença era desejada.
De longe, via-se o melhor sorriso que Wallace conseguia. No zoom, seu sentimento sempre à margem, conversando com qualquer um que por pena lançasse a ele alguma conversa fiada.

Qualquer palavra de conforto que recebe com o avançar da história também se mostra insuficiente: nada aplaca o sentimento real de Wallace, visto que todos estranham sua posição específica em relação ao luto. Wallace não sente vontade de chorar, sofrer, ser abraçado. Seu sentimento é confuso, atravessado pela relação conturbada com o pai, aos poucos revelada pelo narrador onisciente, e por um passado traumático.

Quando criança, o silêncio era, na verdade, o acúmulo de ruído. O barulho o acalmava.
Quando virava o ventilador para a parede, soava como o mar ou um riacho.
Quando a janela estava aberta, ele escutava latidos, ganidos, uivos solitários subindo pelas árvores como fantasmas, estampidos e explosões no interior do bosque.
E assim, não dava para ouvir seus pais discutindo, seu irmão e a namorada no quarto ao lado, as latas jogadas nos fundos da casa, o ronco do homem que dormia na sala.
Não era o mundo exterior que ele precisava abafar, mas aquele mundo interno, que sempre lhe pareceu muito mais selvagem e estranho do que qualquer coisa que ele tivesse encontrando caminhando sozinho na floresta.

Eles voltam a ser os estranhos que são: rostos levemente familiares em um fluxo intenso de rostos. É coisa mais gentil que ele pode fazer por si mesmo e por eles.

Não alcançou o perdão, mas o esquecimento. Parecem a mesma coisa pra ele.

O romance se constrói pelo acúmulo de experiências imperceptíveis para os estudantes brancos, mas doloridas para Wallace: é preciso que ele se esforce mais do que todos, mas sem receber um terço do crédito, confiança, reconhecimento que seus colegas de trabalho recebem. Todos fingem preocupação, dizendo que ele precisa melhorar sua vida pela educação antes que as estatísticas sobre jovens negros o alcance, mas não enxergam a estafa e a violência que já o aproximam da morte ali dentro. O cansaço de Wallace escala até níveis desastrosos, mas desistir coloca em questão todos os estudantes negros – seria ingratidão com quem investiu em sua educação.

Há em cada cena uma tensão que envolve questões sociais ditas com preconceitos velados. A violência visível quase não acontece, mas a microscópica está sempre ali. É fácil ignorar uma frase racista ou substituí-la por uma palavra de conforto tão rasa quanto possível. Eles verão, mas não vão falar nada, não conseguem. O silêncio é a forma dos brancos sobreviverem, porque, se ficarem calados tempo suficiente, esse desconforto passará mais rápido. É o pacto, ninguém se esforça. Ninguém nunca consegue fazer nada quando ouve algo que não se alinha com a sua própria percepção das coisas.

Essa é a parte frustrante: Wallace é o único que considera isso humilhação, continua remoendo cada episódio e seu cansaço o impede de reagir. Sua desconexão com o cenário se torna uma desilusão que se torna um sorriso que assente. Sua jornada acontece quase por inércia, sua vida sendo construída com base nas decisões e expectativas dos outros. Se a memória e a palavra o limitam, é no corpo que Wallace extravasa a mágoa latente.

É injusto, porque os brancos têm um interesse próprio em subestimar o racismo, sua frequência, sua intensidade, sua forma, seus efeitos. São como a raposa no galinheiro.

Wallace puxa a camisa de Miller, se endireita, deixa seus corpos se tocarem, seus lábios entrarem em contato.
A fricção fugaz, o calor, a sensação de umidade dão a impressão de que ele sabe muito bem o que está fazendo, mas não. Wallace tinha sido beijado apenas duas vezes. Ele não era alguém desejável para os outros e também demora para conseguir atingir esse nível de intimidade, esse algo tão bom que o faz sentir medo de perdê-lo.
De perto, não há conforto em alguém pressionando uma parte diferente de sua boca, queixo e face a cada beijo. Ele se sente revistado, Miller em busca de algo, algum tipo de resposta para uma pergunta não estava sendo feita.

Com Miller, o único colega que vem de um lugar de pobreza, ele viverá uma relação que passa tanto pelo reconhecimento quanto pela destruição do que há em comum. O amigo, que se entende como heterossexual, despertará em Wallace um tipo de prazer que passa pela violência, tanto física quanto psicológica. Talvez amizade seja no fundo apenas crueldade controlada. Talvez seja exatamente o que eles estão fazendo, dilacerando um ao outro e querendo bondade em retorno. Os dois abaixam as guardas que o mundo exige de quem tem uma origem como a deles, compartilhando traumas e problemas, só para se armarem no diálogo seguinte: uma contaminação acidental? Um problema subjacente? Não importa tanto a motivação depois que a tragédia já aconteceu.

Com a descrição metódica de Brandon Taylor, cada sensação se torna um poço para onde as personagens se afundam, se afogam – um jantar a dois, uma relação sexual, um soco entre gritos. Meter e chupar e mastigar e beliscar e se esfregar e deslizar e puxar e jogar e rolar e provar e lamber e morder e ser segurado e ouvir sussurros no ouvido e ser empurrado pra baixo e jogado contra a parede e mantido lá: atos corriqueiros assumem contornos estranhos quando vistos de perto.

Olhar o outro, olhar esses outros, é sempre olhar a si. Prestar tanta atenção no corpo deles faz prestar atenção no próprio corpo, se dar conta de como ele é, simultaneamente, uma coisa sobre a terra e um veículo para toda a história de nossa vida. Um corpo é ao mesmo tempo seu eu tangível e a sua depressão, a sua ansiedade, seu bem-estar, sua doença, seus distúrbios alimentares, o medo de que seu sangue se esvaia. Corpo e não corpo, imagem e pós-imagem. A soma das falhas dos corpos das personagens passam pelos seus olhos e cada um deles enxerga o quão longe da beleza eles foram concebidos e feitos. 

Ver alguém bonito ou desejável é sentir a distância entre esse alguém e você, seu corpo e o corpo do outro. Não é nem que Wallace queira ser os outros. O que ele quer é não ser ele. Wallace deseja não estar deprimido, não ser ansioso. Como modificar um corpo? Como modificar as histórias de nosso corpo, que são inseparáveis do próprio corpo e estão sempre se ampliando?

De longe, todos eles parecem adultos sérios, conscientes de suas escolhas, sabem tudo sobre móveis de qualidade, como conseguir um emprego, um plano de saúde digno, declarar seus impostos, planejar férias de verdade.
Mas, olhe de novo, com mais atenção, aproxime a lente: parecem brinquedinhos de plástico. É bobo, não é? Estarem estudando ainda. O que eles ainda estão fazendo aí na universidade? Acho que talvez essa pergunta não seja tão boba. Não menos importante do que aquela pergunta que eles sempre fazem: como seria ir embora, fazer outra coisa, fazer algo real?

A tristeza de cada um, a persistência da infelicidade, talvez seja a única coisa que os conecta. É apenas a perspectiva de infelicidade maior que os mantém no circunscrito mundo da pós-graduação.

Para as coisas práticas da vida, todas as personagens parecem insuficientes – o que não necessariamente é um problema para alguns deles. Se o mundo tem uma opinião sobre o que você tem a oferecer, se o mundo decidiu que quer você, então não importa quantas vezes você erre. A questão é que não desejam Wallace – nem ali, nem em nenhum lugar. Não mudaria nada abandonar a pós-graduação. O que ele precisaria é abandonar a sua vida.

A cada página, o narrador vai desnudando como o academicismo é construído em cima de ideias que não passam de mitos: estar na universidade não significa que exista uma superioridade da parte de nenhuma pessoa, uma maior inteligência, por exemplo. Significa apenas que todos ali têm disponibilidade e tempo para se sentar em frente a um microscópio e esperar por horas que algo aconteça. No fim das contas, são apenas pessoas levando a vida, fazendo compras e comendo, rindo e brigando, fazendo o que as pessoas no mundo fazem.

Gente que se apresenta ao mundo de forma cuidadosamente construída, mas, por dentro, carrega dúvidas demais sobre quem são. Carência, medo, solidão. Isso é o Mundo real. Não é só o acúmulo de tarefas, coisas a serem feitas e resolvidas, mas também os choques contra outras vidas, a insignificância de cada um de nós se tomados e observados em conjunto.

Existe algum prazer em ver cada personagem desmoronando, deixando seus conflitos se sobreporem às suas certezas. A incompletude e o abandono de todos eles dá vontade de rir um pouco – mas depois vem a estranha sensação de queda invertida, de vertigem. O desconforto de se enxergar ali: entender que não se está sozinho nesse tipo de inadequação é uma verdade perigosa, porque se percebe que nada pode melhorar, o sofrimento só mudará de forma.

E então, de volta ao trabalho.

andre
aguiar

é jornalista e pesquisador.