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elas marchavam sob o sol
cristina judar

dublinense
160 páginas

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ana, saindo de casa depois de uma chuva, encontra uma pedra estranha no jardim. olhando com atenção, entende que não era uma pedra, enfim. mas um besouro, um corpo morto, uma casca rígida que sobrou de uma vida de inseto. a moça recolhe aquele item como se fosse uma joia e, mais tarde, na aula de ciencias acaba tendo um insight, diante de clark, um feto guardado junto a formol numa das prateleiras do laboratório do colégio. ela se vê diante de dois caminhos para sua vida. de um lado, a memória e a forma de um besouro. do outro, a aberração e a impossibilidade daquela amontado de cartilagem. quem ela se tornaria?

essa primeira cena de elas marchavam sob o sol dá o tom das interrogações que ana fará ao longo de um ano inteiro, mês a mês, até completar dezoito anos. longe de ser uma adolescente boba, essa primeira protagonista toma decisões ativas e faz questionamentos importantes sobre seu lugar no mundo a partir das cenas que observa no seu cotidiano urbano, familiar, de classe média.

mas, ela não é a única que vai viver esses últimos 12 meses antes da maioridade neste livro. joan, a outra protagonista, também vai registrar uma jornada de amadurecimento ligada a um ambiente que dialoga com uma natureza ancestral, o misticismo e a espiritualidade. enquanto ana aparece pela primeira vez numa escola equipada, a primeira cena de joan é mostrando os rituais de embalar e defumar corpos na sua região. joan se mostra acostumada e preparada para lidar com os cheiros e texturas que geralmente causam asco e desconcerto nas pessoas. não fica tão evidente as origens e localizações desse grupo, mas logo entendemos que eles continuam com práticas semelhantes desde a época dos faraós, utilizando elementos naturais para honrar os mortos e enfeitar o chão. cânfora, mel, ervas. não se trata exatamente de uma mumificação, mas de um trato respeitoso com os corpos, porque joan logo declara que a morte é um processo de transformação. é um corpo que não pode ser contido, um processo que não pode ser interrompido, assim como todos os outros corpos que vão aparecer durante o romance.

se a morte é uma mudança de estado, a vida não é nada além de uma sucessão de pequenas mortes. essa ideia é repetida de formas diferentes e criativas ao longo da história, por meio de diversas situações e comentários sobre nossa organização social, principalmente no que diz respeito às mulheres. mulheres que não podem se transformar ao longo do tempo, devem sempre conservar o peso, a juventude, o viço, a vitalidade. e aí aparecem o uso de maquiagem como obrigação, as exaustivas propagandas de cinta elétrica e outros aparelhos para emagrecimento, os aparelhos ortodônticos que aprisionam os dentes, a moda como algo tão passageiro quanto uniformizador, as cirurgias plásticas que retiram tudo que existe de flácido. mulheres que se tornam caricaturas de si mesmas.

em um mundo que elogia as linhas retas e a permanência, os ciclos do corpo feminino são um perigo, pois tudo que muda demais gera algum incômodo. absorventes, pílulas, sabonetes íntimos, silêncios, piadas… tudo que esconde a menstruação da vista, tudo que torna o sangue um tabu, toda a ironização em volta da tpm, acaba aprisionando. são essas as nossas fogueiras contemporâneas.

o consumo se torna uma prisão também, como na cena de uma mãe que está sempre renovando e se cansando dos objetos ou dos carros que se aceleram o tempo de trabalho nas grandes cidades, e acaba extrapolando para as formas de relacionamento que seguem a mesma lógica, como nos perfis em redes sociais que menos explicam quem são seus donos e mais tentam os vender como alguém descolado. perfis que criam ideias sólidas de alguém, enquanto escondem tudo que pode ser considerado fragilidade e verdade.

para além dessas prisões simbólicas, dessas outras formas de restrição da liberdade, cristina judar também vai apresentar narradoras que vivenciaram o cárcere. algumas cartas, documentos e registros que tratam da ditadura vão salientar essa ideia de utilizar o corpo, o molde dos ossos, a tortura como forma de mudar um pensamento. causar uma dor no corpo para que o pensamento de defender os seus se esgote. causar uma confusão mental por meio de cifras e códigos para que o pensamento se transforme em contradição. mulheres reviradas ao avesso por conta de algo que não pode ser aprisionado: suas ideias.

é pelo acúmulo de todas essas cenas que a gente vai compreendendo o mosaico que elas marchavam sob o sol representa. isso desde o início do livro, inclusive, nas primeiras páginas, no capítulo narrado pelo feto Clark. ele conta que sua composição física não é só tecido e cartilagem, mas também histórias, preservadas no mesmo formol que ele. algumas pessoas leriam isso como lembranças de encarnações passadas, mas ele afirma ser uma memória celular, coisas que aprendeu com sua mãe, quando ela ainda estava grávida. ele busca nela sua formação, mas, mais do que isso, imagina um futuro a partir dela.

as duas protagonistas vão fazer a mesma coisa: elas vão olhar para suas mães, avós, para as mulheres mais velhas ao redor, procurando entedimento e inspiração, mas, logo depois, provocam esse lugar e tensionam seus espaços, cada uma com suas ferramentas, cientes de que enterrar suas ideias é enterrar revoluções. cientes de que estão nesse lugar por uma força maior, que advém do passado, elas vão tentar enfrentar o que tiver de enfrentar, porque entendem que as suas prisões equivalem à prisão de todas as mulheres, não só do presente mas também do futuro.

elas trazem o passaro em seus corpos, nos tecidos rompidos, nas cicatrizes, nos disfarces, e se reconhecem como ancestrais das adolescentes que ainda virão. todo corpo é muito além de suas fronteiras no tempo. e é por isso que seguem firmes nesse processo de florescer e mudar definitivamente a ordem das coisas. imaginando possibilidades de recomeço.

este é um livro sobre não se deixar estagnar, sobre não repetir a norma geral sem reflexão, sobre não assimilar os papeis sem os questionar. cristina judar já explica isso desde o título: não é caminhada e passeio, não é corrida e competição. todas as mulheres pelo tempo estão conectadas por essa mesma marcha. que é uma forma de luta.