lanternas ao nirvana
felipe franco munhoz

editora record

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uma família em reordenamento social, isolados do mundo. se todo homem é uma ilha, a pandemia dos últimos anos deixou ainda mais evidente como qualquer tipo de naufrágio pode ser angustiante. olhar o outro para se reconhecer é fundamental, então felipe franco munhoz olha para os outros que consegue daqui, de sua janela cercada de nada. abrem-se as cortinas. a varanda da casa permite que o mundo seja um meio de comunicação com a vizinha do outro lado. uma pomba pousa num fio de energia para ser observada. uma sinfonia de luzes coordenadas, acendendo e apagando nos prédios da frente. uma multidão de pessoas sem remorso andando livremente pelas ruas. um ponteiro fixo, firme, estático, um tempo em suspensão.

lanternas ao nirvana lança luz sobre dramas, questões e afirmações que parecem ainda longe de acabar, mesmo que o fim do túnel pareça um pouco mais visível daqui. o autor desenha um calendário desordenado de seus dias em quarentena com a esposa e o enteado. um campo domiciliar de batalha. para isso, reflete sobre a solidão, o isolamento e a morte, como tantos outros autores fizeram nesse período, mas insere nisso referências complexas, delírios literários, lapsos retratados, personagens presos em um labirinto interno – sendo interno tanto suas mentes quanto suas casas. um coro infiel de vozes internas, uma multidão de eus líricos que se transforma, multiplica, fragmenta ao longo das páginas.

esse livro é um diário de quarentena diferente e inusitado. são luzes que sobem ao céu como dramaturgia, rimas, narrativas policiais, recortes, colagens, anotações, notícias. a cada capítulo, uma nova estética. em resumo, poesia. às vezes rimada, às vezes em verso livre. às vezes sem som, às vezes com trilha sonora. com o nosso e outros idiomas, felipe franco munhoz já tem um histórico em esgarçar os limites da literatura, subvertendo diagramações, misturando gêneros textuais, reinventando o que se propõe: a Philip Roth, o pacto fáustico, a si mesmo. de certa forma, fica expressa nesse forma a dificuldade em refazer as comunicações nesse tempo. cada cena com sua gíria, cada página com sua estrutura. são experiências compartilhadas, mas ditas de maneiras diferentes. incomunicáveis entre si, mas relacionáveis num espaço literário maior.

como é ver uma boca novamente depois de tanto tempo? como compartilhar elevadores sem suar? como respirar com calma sem máscara hoje? novamente, aqui tudo se bifurca, mostra a si mesmo e seu avesso. experiência desafiadora, que exige tentativas sucessivas, leituras repetidas, releituras insistentes. ler felipe é como um ensaio para sair de casa, investigando vizinhos, descobrindo novas linguagens, redescobrindo como se comunica e, de certa forma, renovando esperanças. lançando lanternas para voltar a compreender.

lanternas ao nirvana
de felipe franco munhoz
foi publicado pela editora record
em 2022.
um livro para quem gosta de escrever cadernos, higienizar sacolas, música clássica, álcool em gel de bolso, literatura grega e pensar estruturas.