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resgate histórico
de um ㅤ casamento
que ㅤㅤacabou

vanessa barbara escreve a história de um relacionamento por meio de detalhes pequenos que intrigam, momentos de calmarias e algumas madrugadas insones

operação impensável
vanessa barbara

intrínseca
224 páginas

Há um tempo o Discovery Channel exibiu um documentário onde uma senhora pacata afirmava ter um marido atencioso e gentil, que a ensinou a dançar, que a levava para acampar, que planejava passeios românticos de bicicleta… Para a esposa, a única atitude suspeita, ou melhor, esquisita, de Gary, o marido, era o fato de não haver tapetes na casa dele, para onde ela se mudou depois do casamento.
Casamento que durou catorze anos e só acabou porque ele confessou ser o serial killer conhecido como o “Assassino de Green River” e enrolar os cadáveres de suas vítimas com os tapetes.
A história que Vanessa Barbara conta em Operação impensável não é tão dramática e nem tem uma revelação tão impactante no final, porém também tem a ver com detalhes pequenos que intrigam e um relacionamento que durou por muito tempo de calmaria, mas que também teve lá suas madrugadas insones.
 
A narrativa do livro é uma forma de Lia¹ entender melhor o que aconteceu com seu casamento com Tito².
¹ historiadora, desenvolvendo um mestrado sobre a Guerra Fria, conseguiu descobrir o assassinato de Laura Palmer em Twin Peaks com cinco episódios de antecedência;
² programador, trabalhando com tecnologia da informação, não admite que rodopiou pela sala com ares de sonhador depois de uma comédia romântica.
A primeira parte de Operação Impensável, batizada de Período de Paz, é o que vai nos apresentar os personagens e as características que norteavam o casamento dos dois. Sem um narrador ou um fio claro que ligue um trecho ao outro, estas páginas são tomadas por fragmentos diversos que remontam os cinco anos de relacionamento. São contratos, diários, bilhetes, transcrições de conversas, circulares, listas, prontuários médicos… E, como é Lia quem organiza estes ficheiros, temos ainda algumas intervenções dela entre um texto e outro, fazendo referências ao futuro e tentando elucidar quando foi que o casal deixou de funcionar como um casal no sentido bíblico da coisa.
 
Bem distintos quando falamos de suas profissões e personalidades, é interessante ver como eles utilizam os gostos em comum (basicamente filmes e jogos de tabuleiro) e as situações vividas juntos (como o dia em que Tito jogou um litro de lavanda nos vizinhos de baixo ou quando descobriram como se usa apoios de panela) para converter tudo em noninoni e criar um modo particular de um lidar com o outro, além de todo um vocabulário próprio (acompanhar e entender as mensagens de e-mail e conversas por telefone só se torna possível porque o livro traz um índice onomástico de piadas internas).
“22 DE AGOSTO DE 2006
DE: LIA
PARA: TITO
Tito, que fica lindo com luvas de cozinha, vem me contar alguma história comprida sobre amores turcos ou batatas-inglesas, me põe para dormir com as suas mãos enormes e um abraço de nos afundar até o andar de baixo, me dá um beijo salgado e canta uma canção para pentear macacos e adormecer mosquitos. (…)
Me deixa invadir seu mundo com calças de pijama, limpadores de lente de contato e preguiça, dorme comigo todos os dias e me leva pela mão quando eu me assustar.”
Esta primeira parte também traz o que Lia e Tito chamavam de “O Grande Livro do Cinema”. Apaixonados por filmes, os dois mantinham um caderno privado com críticas bastante pessoais dos filmes que viram juntos.
 
Os relatos contam um pouco da sinopse do filme, citam os atores, soltam um ou outro spoiler, fazem críticas espirituosas e revelam um pouco da personalidade e da identidade dos personagens quando narra também quem chorou com a cena final, qual dos dois roncou ruidosamente com um filme chato, qual o diretor preferido de cada um, qual ator eles não suportam, mep-mep.
 
Esta é uma das partes mais interessantes do livro, porém, é justamente aquela à qual muita gente pode se opor. Pode parecer maçante para quem não entende de cinema ou não conhece a maioria dos filmes citados, mas é plenamente possível utilizar estas resenhas apenas para rir das ironias da autora. Em vez de entoar a Canção dos Timóteos, o legal é desapegar dessa de tentar entender todas as referências e brincar com este recurso narrativo.
“19 DE NOVEMBRO DE 2007
TRANSFORMERS (2007, MICHAEL BAY)

(…) Há uma trama bastante lógica e bem construída envolvendo um cubo, que os robôs desejam recuperar para… para… terminar o filme.
Após a sessão, sabe-se que Tito assistiu novamente ao longa-metragem, pois não tinha capturado a densidade psicológica e a motivação dos robôs.”
“22 DE DEZEMBRO DE 2007
O LABIRINTO DO FAUNO (EL LABIRINTO DEL FAUNO, 2006, GUILLERMO DEL TORO)

Categoria “metáfora”, ao lado de O rolo compressor e o violinista (Andrei Tarkovski, 1960), O sol (Aleksandr Sokurov, 2005) e Mary Poppins, a obra-prima do medo. (…)
A Lia não entendeu nada e saiu reclamando do projecionista.”

“28 DE JUNHO DE 2008
GODZILLA: BATALHA FINAL (GOJIRA: FAINARU UÔZU, 2004, RYUHEI KITAMURA)

Mais um filme que faz o espectador refletir. No caso: o que fiz para merecer isso? Por que continuo assistindo? Qual o sentido do sofrimento? Um deus benevolente permitiria tamanha atrocidade?”

“14 DE JUNHO DE 2009
A LÁGRIMA QUE FALTOU (THE FIVE PENNIES, 1959, MELVILLE SHAVELSON)

O filme mais emotivo desde Bambi. No pacote, criancinhas doentes, pais ausentes, artistas incompreendidos e canções de ninar. (…)
A Lia chorou copiosamente durante todo o filme, deu até medo.”
“JANEIRO DE 2008
DE: TITO
PARA: LIA
Querida,
Não é por nada, mas acho que nós devemos interpretar a nossa briga de ontem como um “Kitchen Debate” igualzinho ao que ocorreu entre o Nixon e o Kruschev em 1959, e não só porque se deu na cozinha, diante da panela de pipoca.”
Já a segunda metade do livro (que, por sua vez, é dividida em três partes) mostra o declínio do casamento de Lia e Tito, a trajetória até o divórcio. Aqui, a mulher se assume definitivamente como narradora, criando uma estrutura de romance em primeira pessoa e subvertendo as histórias tradicionais de uma mulher traída e abandonada. As piadas acabam, o clima alegre da primeira parte quebra. Acaba a paz e começa uma guerra: os últimos 43 dias de relacionamento serão comparados pela historiadora com os 45 anos de Guerra Fria. Como neste período histórico, em Operação Impensável também não há um conflito bélico declarado, apesar da sensação de que algo pode explodir a qualquer momento.
 
Entre uma cena e outra no apartamento do casal, a gente visita personalidades da história, descobre como foram feitos planos de ataque e defesa, como eram as reações dos envolvidos nesta guerra e como tudo influenciava na vida pessoal deles… Tudo é narrado com leveza e graça, mas a gente percebe toda a tensão que existe nesses capítulos.
* Em nota um pouco relacionada, vale dizer que, aqui, as referências aos ocorridos na Guerra Fria não são as únicas. Vanessa Barbara também seleciona citações de outros autores (tanto clássicos quanto pop) para embasar o que Lia está dizendo sobre traição, relacionamentos, fins, ciúmes, amores que acabam, crimes passionais, como se fizesse um artigo acadêmico. Entre os excertos, C.S. Lewis, Mário Benedetti, Gillian Flynn, Elvira Vigna e Émile Zola.
“Conversa de café da manhã:
quando a NASA iniciou o programa espacial, descobriu que as canetas não funcionavam em condições de gravidade zero. Para resolver este impasse, empregaram uma década e 12 milhões de dólares desenvolvendo uma caneta que escrevesse com gravidade zero, ao contrário e de ponta-cabeça, debaixo d’água, em praticamente qualquer superfície, incluindo cristal, e em variações de temperatura abaixo de zero até mais de trezentos graus Celsius.
 
Os russos utilizaram um lápis.”
Operação Impensável tem um formato bastante original, no qual Vanessa Barbara joga com diversos gêneros narrativos. No meio disso tudo, é natural se sentir confuso, desacreditar a ideia ou duvidar das referências bizarras da autora (sério, o acervo de cultura inútil dela é invejável).
 
Porém, é muito válido experimentar esta leitura e ir acompanhando e percebendo as nuances das esquisitices dos personagens e da dinâmica desse casal. Ou de todo casal, se é que você me entende.

andre aguiar
é jornalista e pesquisador.