goro

ㅤroba

escutando

tudo tinha ruído,
mauricio pereira

Um sem número de frames começa a passar numa velocidade monstruosa na minha cabeça. Aquela música do Mauricio Pereira, que me faz querer sair pelas ruas do meu bairro no meio do caos, só para ouvir casas mudas com tvs gritando. Eu quero virar pro lado, contar isso pra ela e colocar a música, mas ela está respirando e expirando, respirando e talvez eu devesse levantar dessa cama, ligar o computador pra tentar mapear os frames. Talvez se ela estivesse acordada, eu estaria menos acelerada e poderíamos discutir, mais uma vez, onde estávamos quando ela disse que havia se apaixonado. Cada vez que rememoramos uma cena, menos ela se parece com o episódio original. Essa incapacidade humana me perturba. Aí  me pego selecionando os acontecimentos que só quero lembrar de vez em quando, pra não gastar, pra não me distanciar muito da primeira versão dos meus próprios sentimentos. Alguns dias, conversamos até não poder mais, até chegar de manhãzinha, pra entendermos que é muito tarde pra conseguir trabalhar direito no dia seguinte. Só considero um novo dia, quando dormi e sim, se eu nunca dormisse, viveria o mesmo dia até não ser capaz de reconhecer a passagem das horas. Mas é isso, ela está com os olhos fechados faz um tempão e, pelo jeito, não vou mais ouvir sua voz hoje. Que noite difícil pros meus globos oculares, as pálpebras não querem ter nada a ver com eles. Daí me resta encarar esse teto branco, diferente daquele da casa da minha tia, que era repleto de estrelinhas fosforescentes. Com a idade que eu tenho hoje, ela chamava os sobrinhos pra passar a noite e já tinha seu próprio filho. Sem previsão de filhos por aqui, mas tenho um trabalho chato que tornou indiscutível o fato de eu ser uma pessoa adulta. Não sei se por inveja dos olhos, mas parece que meus ouvidos também insistem em permanecer abertos e daqui escuto o barulho fervilhante da aspirina do vizinho. Olho pro relógio, já são três da manhã e minha barriga solta um barulho gutural. Não quero me deslocar até a cozinha pra preparar alguma gororoba aleatória. Reviro o lençol, rearranjo o travesseiro, deito de bruços. Um amigo diz que, às vezes, a fome é sede. Entorno o copo de água pra dentro do estômago inquieto, minha cara se contorce de agonia, é que esses dias tomei dum copo onde descansava um aparelho bucal. Eu sei, pequenas infelicidades cotidianas, como bater o dedinho na quina do sofá, queimar a língua com café ou ficar com o projetor da mente ligado em memórias vividas-inventadas, por toda madrugada, até chegar naquele instante de suspensão em que a escuridão acabou, mas a claridade não começou e você pensa “fudeu”.

tayná
gonçalves

é jornalista multimídia.