a proclamação da vulgaridade ou quantos furos uma calcinha pode ter?
mila teixeira

editora urutau

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às vezes eu tenho a impressão de que a maior parte da poesia que se produz é sobre sentimento, mas a maior parte da poesia que me conquista é uma poesia que fala de sensação.

eu gosto de poesia quando ela fala de corpo – um corpo no mundo, interagindo com coisas e pessoas e situações palpáveis. eu quero saber de um fim de relacionamento pelo que dói na pele, no estômago, no rim, não no mundo das ideias, não no coração. eu quero saber de como a gente muda conforme as estações, eu quero saber o que a poeta da praia tem pra falar diferente da poeta das montanhas. como a menstruação afeta o corpo da poeta? como o fim do mês aperta o corpo da poeta?

a poesia da mila teixeira é exatamente tudo que eu procuro, tudo que eu gosto numa poesia de gente desse tempo, desse momento histórico, dessa idade nossa. ou exatamente tudo que ninguém esperava – e justamente por isso essa vulgaridade tão poderosa. quem lê é vizinho de um apartamento sem janelas, ouve escondido a consulta de outra pessoa com a taróloga, não devolve o caderninho amarelinho que alguém deixou cair.

é uma poesia que passa pelo corpo de forma muito direta e fala pelo material das coisas. a mão com cicatriz, o rosto com a pele ótima, os olhos que acho que são hipersensíveis, os pés torcidos num número redondo. cada impureza, cada sujeira embaixo dos dedos, cada germe.

é uma escrita com textura de lençol com elástico frouxo, gosto de cerveja trincando com espetinho de camarão e queijo coalho, odor de casca de banana em decomposição. ou exatamente a ausência de cheiro, textura, tudo que não tem um rosto numa foto de perfil, só metade de uma coisa que serve pra apaixonar justamente porque não tem cheiro de mijo na cueca. e um furo.

talvez, se você se aproximar, fixar o olhar devagar, vai perceber o furo. toda poesia fala por um furo, tenta tampar um furo, deixa ver um furo. a poesia da mila enfia o dedo no furo, e outro dedo e outro, até rasgar, abrir o furo ainda mais.

e é por esse furo que sai a risada.

a proclamação da vulgaridade é feito dessas piadas físicas. uma multidão de formigas sendo espantada com fogo, uma cueca que cai do alto de um prédio, o ato de comer paçoquitas de propósito. é tropeção, é tombo, é chute no traseiro, uma poeta entrando no meio do palco com um extintor de incêndio e sacaneando com tudo que esperavam dessa cena, sacaneando com tudo que esperavam desses versos.

poesia das coisas práticas, como reler adília lopes enquanto segue recomendações médicas de tomar mais sol, como um passeio num museu calorento com frank o’hara, como a lista de compras ditada por julio cortázar. é mila teixeira me fazendo lembrar de lavar as mãos e os pulsos de duas em duas horas.

a proclamação da vulgaridade ou quantos furos uma calcinha pode ter?
de mila teixeira
foi publicado pela editora urutau
em 2021.

um livro para quem gosta de ler bulas de remédio, homens feios, cães pulando em cima de si, ditados populares, ler poemas ao som de valesca popozuda e reclamar mesmo quando está bem.