o

ㅤㅤrio ㅤㅤde ㅤjaneiro

ㅤㅤㅤacaba muito

com “formigas no paraíso”, mateus baldi estreia na ficção com contos sobre situações-limite — de pessoas, casais, famílias, cidades.

1.

As nuvens avançam na cobertura da cidade enquanto o livro começa. É uma conjunção inesperada, a chuva castigando os cariocas no livro, a chuva criando a trilha sonora pra minha leitura em Minas. A manhã está nascendo, Karen começa seus exercícios enquanto pensa no filho doente em casa, enquanto tenta se lembrar da última vez em que recebeu uma mensagem do marido, enquanto recorda de quando foi outra mulher com outro homem em outro país. Aos poucos, os pingos aumentam e ela corre para casa, misturando o que é chuva e o que é suor. Sabe que existe, e isso já é muito


formigas no paraíso
mateus baldi

faria e silva editora
132 páginas

Formigas no paraíso, estreia de Mateus Baldi na ficção, começa com uma narração em maratona: esse coração acelerado é sobre a corrida e o esporte, mas também o desespero de uma mãe, a adrenalina de uma traição, a culpa que insiste em vir — tudo vai se confundindo, o presente é o passado, a ansiedade é legível, as vírgulas se sobrepõem e tornam evidente a paisagem fundamental de todos os contos que vêm a seguir — a chuva assolando, uma tragédia interna, os dois horizontes fora de foco. 

Aquilo enxergado do lado de fora dos cenários é exatamente o que há no interior das personagens do autor: eu imagino a persistência da água em inundar as ruas, as avenidas se tornando rios, as calçadas desniveladas criando pequenas ilhas e consigo enxergar claramente a ideia fixa de um motorista que nunca relevou os conselhos do pai sobre a noite, o segredo que uma mulher guardou de um antigo namorado e nunca conseguiu esquecer, uma mulher que décadas depois ainda pesquisa o nome de um amor na internet. Todos eles já tentaram fugir de suas questões no passado, contudo, percebem o congestionamento, as buzinas insolentes, os turistas deixando a praia — e, então, as histórias começam.

a vida virou isso, meu amigo, a gente vive um dia após o outro e vai se recompensando a cada vez que viu que não se perdeu pra loucura. até que

2.

O que muda quando sua esposa pede o divórcio? E quando um pai ausente finalmente falece ou um agressor da sua juventude reaparece em sua vida? Na leitura a gente percebe que, às vezes, pouco importa a resposta. O segredo dentro de uma caixa, um rompimento sem motivo revelado, um incêndio anunciado páginas antes, pássaros encontrados mortos sem explicação: tudo pode ser anticlimático. gente nunca sabe o que vai nos fazer tremer, verdade seja dita. Baldi escolhe narrar aquele ponto determinante na trajetória de suas personagens, a situação-chave quando a realidade se impõe sobre as criaturas, o momento em que se torna inviável voltarem às suas vidas e serem os mesmos — e isso basta. 

Os contos aqui não têm histórias que correspondam a vidas inteiras, detalhes biográficos, apontamentos lineares. O livro é feito de cenas que dizem muito de maneira específica, sem precisar remeter a uma visão ampla. Um fim de semana num hotel entre a esposa e a amante. Uma corrida de carro que leva uma mulher rica a uma casa de suingue. Uma briga em alto mar entre duas irmãs. Aquela sessão de terapia determinante. É uma definição ao avesso: escrever entre o aparente e o particular. Dessas zonas abertas é que se percebe o domínio do autor: cria uma personagem que é todas as personagens, um matrimônio que é todos os matrimônios, uma cidade que é todas as cidades. A chuva do livro é a minha chuva também — eu não tinha certeza, mas achei que ali continuava a entender a vida.

É por isso que a maturidade de Baldi nesses relatos vai além da repetição de técnicas comuns apreendidas dos clássicos modernos, é uma produção que recupera com criatividade esse retrato da catástrofe pelo olhar da cena contemporânea. Há um flerte com o conflito de classe média já visto no teatro brasileiro, uma simulação da tensão e da velocidade da literatura policial que ele admira, uma interpretação própria da dicção carioca em termos de violência. Mantém-se a danação e a depravação moral, mas elimina-se a explicitude e o choque — ganha-se em secura e cinismo. 

Parece o tom correto para expor essas personagens que fingem, mentem, escondem. É essa classe que faz média: que mascara a própria soberba para agradar a todos, exceto os desagradáveis. Um horror civilizatório. A vista daqui parece silenciosa, acolhedora, mas é mentira. A água está na cintura, todavia, ignoram. Fingem tanto que acreditam nessa fantasia de um mundo para os merecedores, como se não fosse próprio da vida (e, por extensão, das profissões, das relações, dos casamentos) o fracasso, o fim abrupto, a ruína. Tudo se arrebenta no vendaval, pois é própria da chuva a explosão nos fios e a cidade no breu.

mas tudo bem, você sobrevive, o mundo sobrevive, até deixar de existir o mundo ainda vai acabar muito.

3.

Fecho a janela do escritório para abafar a chuva que ressoa a pergunta me atingindo desde que comecei a leitura desses contos: como lidar com o sofrimento, a tristeza, a inadequação que existe aqui? Antes de tudo, perceber. Sentir verdadeiramente o peso do presente, pegar o carro e seguir até ver no que dá. Mudar de posição depois disso se torna quase irrelevante.

Se numa metáfora comum a chuva lava e renova, Formigas no paraíso declara que a redenção não faz parte desse plano. Ainda que em algum momento possa haver um vestígio de brilho, o sol entrando por uma fresta, alguma iluminação nos personagens, o que predomina no Rio lá fora é esse céu acinzentado, a neblina encobrindo a cidade, um sentimento espesso nublando os pensamentos. A existência presume a decadência. Este é um livro sobre uma cidade condenada ao abismo.

Mesmo que o filho desaparecido seja encontrado, mesmo que o casamento seja mantido, mesmo que a prostituta seja paga com um cartão de crédito secreto, as marcas dessas fraturas vão continuar ressoando nas vivências de cada um. Tudo segue com a desconfiança em cada personagem, o perdão guardado para outro momento, as guardas sempre em riste. Depois da chuva de Baldi, há sobreviventes. Entretanto, ainda ficam as marcas, um monte de lama e lodo, as marcas nos muros, as lixeiras reviradas.

Tem vontade de dizer que vai passar, que a vida é assim, mas sabe que não passa, que demora e arde. Quem viveu a enchente nunca consegue dormir pesado de novo. O inferno é o som da goteira. Se há insetos, não é paraíso.

andre
aguiar

é jornalista e pesquisador.