biblioteca
essencial

flávia
péret

escritora, artista, professora, pesquisadora

Mestre em Teoria da Literatura, atualmente realiza doutorado na Faculdade de Educação (UFMG). desenvolve e pesquisa processos no campo da palavra e sua interseção com outras linguagens.
Recebeu o prêmio “
Jean-Jacques Rousseau”, pela Akademie Schloss Solitude (Alemanha) pelo projeto Uma Mulher (livro e site de escrita expandida), e o prêmio “Memória do Jornalismo Brasileiro”, promovido pelo Jornal Folha de São Paulo.
Publicou livros de poesia, ficção e não ficção – entre eles, “Uma Mulher” (2017 e 2018) ,”Os Patos” (2018) e “Mulher-Bomba” (2019).
Em 2021, irá publicar “Instruções para montar mapas, cidades e quebra-cabeças.”

os livros de sua biblioteca essencial compartilham certa subversão, alguma ruptura com a própria literatura e com a linguagem. Todos foram escritos por mulheres e a contagiaram com uma vontade (imediata) de escrever. 

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A TEUS PÉS,
ANA CRISTINA CESAR

O encontro com este livro causou, ao mesmo tempo, um arrebatamento e uma possibilidade de existência: escrever. Então era possível escrever poesia daquela forma? Misturando tudo e ficcionalizando tudo, versos de poetas canônicos com frases antilíricas e bilhetes e restos de poemas e rascunhos. Com esse livro, descobri que o verso pode ter a forma de uma frase. A frase-verso é, desde então, minha obsessão. 

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Diário de Bitita,
Carolina Maria de Jesus

Uma obra prima. Se não me engano, último texto da escritora que, com este livro, alcançou um nível de enraizamento nas questões da memória individual e coletiva do nosso país admirável pela singularidade e pela força no modo como observa, transfigura e escreve realidade e imaginação.  Bitita era o apelido que Carolina tinha na infância. A narrativa trata desse momento da vida da escritora. Para além do lirismo profundo, Carolina constrói uma paisagem do Brasil e de todos os nossos terríveis e persistentes problemas. 

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Água Viva,
Clarice Lispector

A sensação que tenho é que, até hoje, não entendo este livrinho totalmente, mas me identifico com cada frase, pensamento, forma, expressão, dilema, medo e desejo escrito ali. Água Viva me aproximou desses seres que tanto admiro – mulheres que escrevem. E a questão que ainda hoje, 20 anos depois da primeira leitura, encontrei ali, sigo perseguindo cotidianamente: escrevo por profundamente querer falar.

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Argonautas,
Maggie Nelson

Outro encontro com uma escritora que mistura tudo e dissolve as fronteiras entre o que é ensaio, ficção, teoria, narrativa. Um livro que me arrebatou pelo tema – uma família queer – e pela forma, uma escrita muito fragmentada, polifônica, aparentemente meio descosturada, mas que segue um fio narrativo. Ela se apropria de muitas histórias para contar uma história. Neste livro, o pessoal torna-se político numa escala ainda mais experimental.

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Borderlands – La frontera,
Gloria Anzaldúa

Ele está escrito em espanhol, mas também em chicano e tem muitas palavras em nauhatl (uma das línguas faladas no território mexicano antes da colonização). Muitas partes desse livro eu li em voz alta, tentando sentir a sonoridade dessas consoantes soltas e das palavras que enrolam dentro da boca. O livro fala sobre isso: inventar uma língua, falar, não permitir que domem nossas línguas selvagens. É uma leitura meio mágica, meio performática, meio no meio de tudo, uma escrita/texto de fronteira, para usar um termo da própria Anzaldúa.

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Garota, Mulher, Outras,
Bernardine Evaristo

Mulheres que escrevem e que ao escrever mudam a ordem das coisas, inventam outros modos de escrever, inventam outros mundos com as palavras, criam e inventam outras histórias e outras sensibilidades. Esse meu interesse/curiosidade persiste desde a adolescência… talvez tenha algo de essencial nessa pequena comunidade.  este livro é minha leitura atual e realiza tudo isso. Estou arrebatada.