caixa baixa

essência

Distinguir
o cheiro externo
do cheiro próprio.

crônicas, cotidiano, humor

lendo

os diários de emilio renzi,
ricardo piglia

Passar a manhã sentindo um cheiro desagradável. Supor que seja culpa da casa suja. Esfregar o chão da cozinha, esterilizar o banheiro, tirar pó dos móveis, aspirar o sofá. Tomar banho com uma esponja comum. Deixar o banho, baforar na mão, escovar os dentes. Constatar que o odor continua imponente. Remover todas as roupas do guarda-roupa, colocar a máquina de lavar para funcionar. Perder muito tempo com todas as lavagens. Dormir sem ter resolvido o problema. Despertar com ânsia de vômito, faltar ao trabalho. Mover todos os móveis de lugar, atingir cada canto da casa com um pano encharcado de desinfetante. Atinar que é a primeira vez que faz uma faxina tão completa. Distinguir o cheiro externo do cheiro próprio.

Adentrar no banheiro, limpar com mais afinco todos os membros, não esquecer dos vãos entre os dedos dos pés. Desligar o chuveiro, secar a água do corpo, cheirar a toalha. De novo não, de novo sim. Espalhar sob a pele o creme corporal de flor de ameixa. Escovar os dentes, usar fio dental, escovar de novo, bochechar enxaguante bucal. Disfarçar ainda mais o odor com um perfume cítrico. Vestir uma roupa estampada, ir ao mercado mais próximo. 

Caminhar ao lado de pessoas que não farejam nada de errado. Comprar uma bucha natural, optar pelo caixa automatizado, não pegar uma sacola plástica. Partir para casa com a embalagem sufocada entre os dedos, andar, de novo, com medo de que as pessoas percebam algo, mas elas nada percebem. Mandar a roupa direto para o cesto sujo, lacrar o cesto. Ligar o chuveiro, notar que o sabonete está quase acabando por conta do banho anterior, sair respingando todo o banheiro em busca de outro. Voltar ao box, gastar mais de uma barra tentando conquistar outro cheiro. Dar alguns passos para longe do banheiro, deitar na cama e respirar com alívio. Não há nada de errado? 

Ficar de bruços, antecipar a perturbação no olfato, acender a luz. Encher a garganta de angústia para rejeitá-la logo em seguida. Olhar para os dedos enrugados, sentir a pele fina. Abrir todos os armários em busca de algo mais forte. Encontrar uma esponja de aço e um detergente. Agora vai. Começar pelos pés, lastimar a pele no ferro, pensar se tomou a vacina antitetânica. Subir para as pernas, enquanto a água deixa um rastro vermelho. Desistir por um momento, refletir se precisa mesmo disso tudo. Gritar, chorar, espernear. Entender que está por debaixo da pele. É preciso sangrar.

tayná gonçalves

é jornalista multimídia e publica seus textos no Leituras.