duas mortes
julia bac

editora 7letras

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Uma árvore cheia de pitangas, um almoço imaginário, a ausência de brincos na orelha. Quando alguém morre, ficam os objetos lotados do cheiro desse alguém. Fica a lembrança de uma tarde que nunca vai acontecer. Fica aquele conselho, pra sempre se repetindo na cabeça de quem ficou. Aquele “o que você acharia disso, mãe?” ressoando a cada encruzilhada.

Duas Mortes, de Júlia Bac, é a realização de uma escavação, uma arqueologia do luto – a poeta revira tudo aquilo que a liga a uma pessoa que já se foi e a quem ela nunca mais poderá olhar. As flores de jacarandá todas no chão. As samambaias perdendo a cor, murchando, caindo folha a folha a folha a folha. Coisas que aprendem a morrer junto.

É uma voz que tenta entender as mudanças, medir as ausências, dar algum sentido ou algum sentimento aos espaços vagos. Encontrar uma unidade de medida para tentar transformar esse dentro em algo palpável, procurar o verbo e a conjugação ideal para tratar desse distanciamento como algo mais real, elaborável. Na falta de explicação, funcionaria ter um rabo – para evitar o movimento involutário das pálpebras, o silêncio desconfortável ou, pior, as perguntas invasivas.

Porém, também existe um rompimento planejado, esperado, agraciado. Não que esse seja mais fácil, por ter sido feito não por acidente mas por necessidade. Porque a vida também é feita de outros fins que se parecem com mortes, que pedem maneiras de luto, que deixam objetos e cheiros e lembranças e futuros e frases que ressoam. de um lado, se toca cada objeto com carinho, como se fosse a pele de quem foi. do outro, lençóis, toalhas, taças de champanhe, tudo é trocado e empacotado, para não sobrar nenhum rastro desse outro alguém. alguns lutos são feitos pra durar e outros carregam a vontade de se acelerar.

falecimento ou fim de relacionamento, enfim, é tudo essa coleção de lágrimas, uma estrada turva, o horizonte fora de foco.

É sobre se forçar a se sentir, empurrar o corpo da mãe até o limite de si, dormir de lado só para lembrar da pessoa que falta na cama. Tentar se sentir segura de novo, mesmo que no início haja apenas o medo causado pelo espaço vago, exige um movimento, uma torção, uma reviravolta em si mesma que o objeto livro tenta dar conta.

Confiar nas pernas quando ver de novo o lobo. Lamber orelhas até alcançar a distração. Olhar-se no espelho, ver um corpo já morto mas acreditar na vida. Porque apesar do corte, da incisão, de tanto vermelho, ainda se respira.

duas mortes
de julia bac
foi publicado pela editora 7letras
em 2021.

um livro para quem gosta de cuidar de plantas, olhar rachaduras, porções individuais, colocar os pés na terra, objetos de vidro e sapatos do tamanho ideal.