diga que não me conhece
flavio cafiero

todavia

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tato se levanta da cama de ressaca, depois de uma noite com champanhe e remédios, e jura que vai tecer um diálogo com fabiano, mas não vai. ele foi embora tem algumas semanas, disse que não estava mais dentro desse relacionamento e partiu com suas coisas.

toda essa aflição clássica do tema do abandono está em “diga que não me conhece”, mas o autor parte desse tema recorrente na literatura, da separação, do divórcio, para desenvolver uma linguagem própria que adiciona imagens pertencentes à contemporaneidade nisso – uma espécie de onipresença de medicamentos e antidepressivos, o comportamento influenciado pela tecnologia, uma geração de adultos que parece mais infantilizada ou imatura que as anteriores.

flavio cafiero vai remontando os primeiros dias de tato sozinho num apartamento novo, onde tudo mesmo assim parece ser uma lembrança palpável, uma ausência que ocupa objetos demais. tanto móvel novo lembra todas as primeiras vezes que fará sozinho alguma coisa que faziam juntos. e então, o primeiro reencontro.

a primeira vez que se reencontram pessoalmente, as roupas que você não reconhece, um vício de linguagem na fala que comprova que ele agora frequenta mesmo outros círculos sociais. quando você encontra aquela pessoa numa quarta feira e ele odiava sair às quartas feiras, frequentando o rolê que sempre disse que detestava. e aí vocês se afastam na festa, mas você continua prestando atenção, discretamente, e vê quando seu ex está acompanhado, está dançando com outro, e esse outro nem o mesmo com quem ele postou uma selfie uns dias atrás. a fila realmente andou.

quando tato perde esse amor repentinamente, algo dentro dele se destabiliza junto. depois de passar um bom tempo ouvindo de uma pessoa que você foi uma boa surpresa, um presente, fica difícil não sentir uma espécie de vazio. um namoro no meio lgbt é uma espécie de validação, um motivo de orgulho fodido em nomear as
relações, porque dizer meu namorado ganha peso de medalha para quem cresceu sem poder sair falando o que vem à cabeça, porque tem criança por perto, porque seu avô não entenderia. é preciso entender arranjar outra identidade já que a de namorado não serve mais.

boa parte de “diga que não me conhece” é uma série de perambulações por são paulo, caminhadas noturnas ouvindo música sem letra, desvios improváveis para conhecer novos prédios e caixas de luz… esse personagem sem rumo, tentando reencontrar alguma paixão pra sua vida – e quando digo paixão não falo de interesse romântico.

é lógico que em algum momento existe a necessidade de buscar novos parceiros e também a vontade de expulsar todos que se diferenciam demais do namorado anterior, mas eu falo mesmo de um sentimento vital, uma vontade de continuar a seguir, realizar projetos, fazer planos novos. tato mal havia chegado a são paulo quando foi abandonado, mas tudo no bairro foi se tornando um canteiro de obras com vias lacradas e placas de desvio, todas as esquinas e botecos que frequentou com fabiano vão o afundando nas lembranças ou o catapultando a um passado alternativo onde eles poderiam ter vivido algo juntos e o futuro seria diferente. qualquer chance de futuro parece ter sido roubada, então é preciso se reapaixonar pela vida. nem que seja preciso inventar uma vida.

Você viu a foto. Meus amigos capixabas lançaram na nuvem, e uma delas aportou aí. Você viu, talvez tenha procurado. E, entre um gole e outro, você comenta. Que eu estava bonito. Eu sei e você também, todo mundo sabe que se um esboço de ingenuidade chegou a deixar rastro na história da civilização, se essa infância realmente existiu, foi sepultada nos primeiros anos do século XXI, e a gente até se finge de morto, mas não, que todos entendessem, ou blefassem, olha lá, cê tá ótimo, mesmo numa viagem repentina a Vitória, cabelo sem corte e pescoço esquálido, aquela visita com ares de internação, vem, querido, pegar uma cor, e vitamina D, que cê apaulistou.

a animalidade é uma figura bem presente nos outros livros do flavio cafiero também, em especial o frio aqui fora, primeiro romance, que ficou na minha memória como um livro cheio de animais selvagens, informações coletadas de documentários sobre bichos, a busca pela ideia de evolução e certa sensação de passear por um zoológico.

me remeteu imediatamente a isso quando abri o “diga que não me conhece” e o comentário que inicia essa novela é um comentário sobre os hábitos das andorinhas. é tato se lembrando de fabiano contando da revoada dos passarinhos todos os dias, no início da manhã e outra vez no fim de tarde, dando revodas pelo céu, voando em bando, fazendo barulho como que para cumprimentar o sol que chega e se despedir do sol que vai. sempre ali, naqueles horários fixos. as andorinhas são os animais mais felizes do mundo.

porém, nessa mesma cena, uma andorinha de louça cai da parede, se parte, o bichinho perde a asa, e tato cai em si. as andorinhas são na verdade, predadoras. elas se aproveitam dos insetos que saem de seus buracos no inicio da manhã e das lagartas notívagas no fim da tarde. o que parecia uma dança, um cumprimento, é um movimento assassino, um rompante de instinto sangrento.

a foto que fabiano tirou da tal revoada das andorinhas no primeiro passeio que deram juntos era só um grande borrão, um vulto sem forma de pássaro. então, não foi postada. só tato viu. no feed, apareceram fotos de paredes grafitadas que aludiam a um outro passeio, que também aconteceu, mas que não foi bem assim. essa sensação vai se repetindo ao longo de toda a novela, nas várias cenas pautadas pelas redes sociais que cafiero constrói.

uma foto numa pose casual, o vento no cabelo, é na verdade uma das cinco versões de uma mesma cena, acrescida de um filtro que dá mais realidade às cores. tato escolheu só a quinta foto, que alguém da turma postou e enfim veio o elogio. a gente vê as fotos, ou a gente procura as fotos também. a gente premedita quando parecer bonitos, quando parecer exaustos, quando parecer nervosos. é esse o plano e todo mundo sabe e joga o jogo.

apesar disso, o flavio cafiero cria esse personagem que é exageradamente reativo, meio obcecado, que passa a tentar encontrar sinais no meio das fotos que fabiano tem postado, das mensagens que trocaram nos últimos dias. e dói ver fabiano com os mesmos olhos, aqueles olhos de quem não chorou vendo o final de certa série, os olhos de quem não sofreu cantando uma música que lembrava os dois, os olhos que nem precisam de filtro porque não pegou chuva de propósito só para ter uma sinusite e poder ter um motivo socialmente aceitável para ficar de cama.

o feed rola e tato se machuca vendo de propósito as fotos de fabiano em diversos bares no centro, entre dezenas de rapazes, ao lado do novo namoradinho que só vai durar pouquíssimo tempo, um festival de fotos sem camisa, poses sensuais, o número de seguidores aumentando… e ainda vem a sensação de que tudo que existe de alguma forma permanecerá grudado a esse ex. todo mundo que se aproxima de tato parece ter acompanhado a relaçao com fabiano e tem algo a dizer. todo mundo ali se segue, se conhece, as relações são sempre as mesmas independente dos bairros, porque os algoritmos agora criam outros tipos de bolhas.

e, mesmo sabendo que tudo ali é uma projeção muito bem calculada, aquela falta de sofrimento sem significado, tato se abala demais, entra em parafuso, começa a delirar, vai conhecendo buracos novos da própria personalidade.

Tu tá delirando, brother. Eu destranco o mausoléu e Samu me mete num abraço. Já é o segundo abraço de socorro do dia, há um rastro de mijo no corredor, e eu pensando em pedir pizza, oferecendo vinho para um alcoólico, perguntando pelo certo alguém e pensando que é terça-feira. Hoje é sábado, rapaz. O impulso foi de chorar forte, mas os remédios não deixavam. Como aquelas películas de caixa de som. Ou uma enorme parede de vidro resistindo a um ciclone. A afobação volta, o mundo inteiro pressionado contra os miolos, abstinência arde mesmo, a combustão se espalha outra vez pelo corpo. Samu mantém o abraço, o fedor de limonada guardada é bom, eu era novamente um cão, agora assustado com os rojões de Ano-Novo

as coisas vão avançando na novela quando tato se muda pra um prédio novo, construído num formato totalmente propício à curiosidade, e vai descobrindo os hábitos dos vizinhos. os movimentos, os barulhos, as conversas nos corredores, a música que sai de um apartamento e passeia pela arquitetura até invadir o seu apartamento, o serviço de coleta do lixo reciclável estranhamente pontual. um marido que pratica nudismo na frente de casa, uma chefe de cozinha que adora receber pessoas em casa em dias de semana, um escritor até que renomado mas sem muitas fotos no google, um ex-viciado que o ensina os preceitos da música eletrônica, uma transsexual que se tornara uma lenda pela vizinhança, um pianista sem horário fixo para treinar o instrumento, a melhor amiga sempre vigiando em que nível se encontra o potencial de autodestruição de tato.

nesses diálogos e relações, tato vai se descobrindo de novo e analisando esse passado recente, o tempo que viveu com fabiano, o tempo que agora já está a viver só. entre medicações e surtos de ansiedade, entre sentimentos perigosos e rompantes de fúria, até manhãs em que não se levanta pra banho e noites em que só há força para chorar sozinho. as idas e vindas desse reencontro violento consigo mesmo, esse fluxo em primeira pessoa nada linear.

a grande figura aqui, talvez, é na verdade o círculo. essa não é uma jornada clássica, um herói seguindo do mundo comum a uma redenção. tato, na verdade, está andando em círculos. o ritmo do livro é semelhante com ciclos obsessivos, transtornos de ideias fixas. as personagens vão se repetindo, são sempre as mesmas esquinas, as mesmas ruas, as questões somem e retornam, há pouco espaço para uma fuga de verdade. tudo se confunde no tempo, cabendo a quem lê reconhecer o que é memória o que é presente, diferenciar a experiência dos surtos. vale anotar: a mudança acontece vinte e dois dias depois da separação e alguns meses antes de tocar as costas do Fabiano com um murro.

quando tato parece estar perto de uma forma de cura, a gente vê ele se perdendo em outros tipos de vício, substituindo a paixão por fabiano por outras questões, outras compulsões, e isso inclui até uma espécie de mistério policial, que envolve bonecas decapitadas que aparecem e desaparecem. “diga que não me conhece” é um jogo muito bem delimitado entre a cura e a loucura, onde nenhuma das duas consegue tomar inteiramente um corpo, de forma que o recomeço dessa vida é sempre um ensaio, um avião que não decola, uma corrida sempre no mesmo quarteirão, uma música que na verdade é só ruído branco, passando de uma casa a outra.