notas

sobre
a desabilidade

FILÓSOFO tenta compreender nossa incapacidade de lidar com cenários que estão, simultaneamente, abertos à pluralidade e à mercê dos interesses individuais.

políticas, coletividade, democracia

Desabilidade

desabilidade

Roberto Parmeggiani

PÁGINAS
64

EDITORA
Nós

Transportando a palavra do campo semântico da inclusão de pessoas com deficiência para o campo das relações interpessoais, o filósofo Roberto Parmeggiani desvela nossa incapacidade contemporânea de estar nas relações sociais com o outro diferente de nós.

No contexto, Desabilidade é aquilo que nos torna incapazes de abrir-nos à alteridade; um sintoma associado a um tipo de medo (uma preocupação vinculada ao bem-estar que tememos perder) ligado a estereótipos que o neoliberalismo constrói. 

O livro funciona como uma espécie de “manifesto por uma vida não fascista”, a incitação de um novo modo de estar no mundo. A seguir, anotações sobre o conceito para a filosofia política e caminhos para romper com a dificuldade de habitar fronteiras.

1
conceito

Desabilidade é a manifestação de um contexto que não está apto a acolher uma diferença e de uma pessoa que não tem as ferramentas necessárias para interagir com este contexto. Desabilidade se apresenta como uma incapacidade de lidar com cenários que estão, simultaneamente, abertos à pluralidade e à mercê dos interesses individuais. Desabilidade consiste numa falta de educação, de recursos, daquilo que é necessário para uma vida plena. Desabilidade é uma dificuldade comunicativa.

2
empobrecimento subjetivo

Para Parmeggiani, alguns fenômenos contemporâneos nos impedem de entender o outro: a dificuldade de interpretar um texto, o desaparecimento das metáforas, os discursos de ódio, a incompreensão das ironias. Levar a sério o que é da ordem do humor e tratar como piada aquilo que deveria ser um assunto sério. Quando empobrecemos as formas de explicar nossos pontos de vista, antecipamos sentidos simplistas, estruturalmente violentos, pois se fecham à alteridade, às nuances e à complexidade que constitui o mundo.

3
estereótipos

O empobrecimento da linguagem e a desabilidade geram o ódio relacionado a quem contraria essas certezas rasas e desvela os preconceitos que sustentam essas falas. Uma parte, muitas vezes insignificante, é tomada pelo todo, e a partir daquele elemento, a pessoa passa a ser julgada, classificada, excluída. O estereótipo apaga as diferenças e, um rótulo sobre o outro, constrói-se uma imagem que condiciona nossas relações. A perda de identidade, a experiência de ser um número entre tantos, é parte desse contexto de hiperbanalização, onde palavras pobres de significado e incapazes de restituir uma complexidade real escondem uma desabilidade de interpretar.

4
neoliberalismo

Não é exagero dizer que a desabilidade enquanto sintoma de uma sociedade que não consegue dialogar é um projeto político. A linguagem empobrecida e as pessoas marcadas pela desabilidade são o resultado da ordem neoliberal e, da mesma forma, são aquilo que o neoliberalismo precisa para sobreviver. De maneira circular, esse modo de estar no mundo transforma a tudo e a todos em mercadoria. Quem consome também é consumido, se torna objeto que pode ser negociado. Não é à toa que, para realizar o projeto neoliberal de total liberdade voltada apenas para aumento dos lucros, cria-se uma oposição à mentalidade subjetiva, apaixonada, imaginativa e sensível. Desabilidade é uma recusa a qualquer compaixão ou empatia.

5
política

Nosso vocabulário está fortemente ligado ao poder, de modo que controla nossos imaginários e o que pode ser pensado, como é o caso de expressões racistas, sexistas ou integralistas. A fraqueza comunicativa é própria daqueles que desejam retirar liberdades, conter avanços progressistas, conduzir o mundo a um único e totalitário pensamento. Pessoas lançadas à desabilidade costumam optar por respostas de força em detrimento de respostas baseadas na compreensão do mundo e no conhecimento. Quem se afasta do pensamento raso e das frases feitas, ou seja, aqueles que colocam em dúvida as certezas que se originam da adequação aos preconceitos, torna-se um inimigo a ser abatido – ou cooptado.

6
diálogo

Toda relação pode ser definida como uma troca: trocamos expressões, falas, experiências, emoções, desejos, crenças, convicções, pensamentos, conhecimentos. Contudo, a desabilidade apaga o outro desses movimentos que deveriam ser dialógicos. O ideal de comunicação na era da simplificação parte do paradigma do amor ao igual, avesso a qualquer resistência do outro. O diálogo fica impedido, pois pressupõe abertura às diferenças. Ao invés de permitir a construção de um percurso comum, acaba criando desencontros, principalmente pela falta de um vocabulário compartilhado. Além disso, não sabemos mais escutar porque nos ensinaram que o silêncio é sempre negativo. Um modo de reduzir esse problema – o conhecimento de poucas palavras e o uso delas de maneira errada – seria o acesso à leitura e à arte, o aprofundamento nos temas e uma educação para silenciar e escutar. Estar aberto ao diálogo é habitar a fronteira.

7
diferença

Para eliminar a desabilidade, é necessário entender o valor da diferença para o bem comum, sendo empático com as necessidades do outro e compreendendo o pensamento alheio. É importante reconhecer que o cotidiano é feito de pessoas e não de categorias – o valor de um povo ou de uma pessoa não deve ser medido por categorias, mas reconhecer essas categorias, de toda forma, é um importante indicador para reconhecer todos dentro de um contexto de diversidade. Reconhecer a diferença do outro não significa abrir mão da própria identidade para assumir a do outro, tampouco, tornar os outros semelhantes a nós, mas construir pontes. É preciso perder o medo da diferença, o medo generalizado de perder algo em favor do outro estranho-estrangeiro, visto como adversário porque é diferente. Pensar uma sociedade complexa requer políticas inclusivas que aumentem a integração, que criem pontes entre as pessoas, as situações e suas habilidades.

8
encontro

A diversidade nos obriga a sair de nós para comparar-nos com o outro, e esse movimento para o externo vem percebido como perda de parte da própria identidade e descoberta de uma nova realidade. Dependemos do outro, pois é em relação a ele que somos, ele nos serve para sustentar nossa identidade, todavia, a desabilidade nos faz desprezar o outro sempre que não conseguimos entendê-lo, categorizá-lo, controlá-lo. Para solucionar essa cultura de descarte, é necessário abdicar de convencer o outro ou destruir suas ideias. Por meio da escuta, criar um espaço de encontro onde o outro possa entrar desarmado e a indiferença e a superficialidade se desfaça. 

9
linguagem

Se quisermos que algo mude de verdade, contribuindo para a construção de uma sociedade mais justa e feliz, precisamos recolocar no centro das nossas reflexões a questão da linguagem. Ter consciência do valor e do poder das palavras, para o bem ou para o mal, reconhecendo nelas o poder criativo fundamental, é o primeiro passo para diminuir nossa desabilidade. Todos nós somos feitos de palavras – ouvidas ou pronunciadas, lidas ou pensadas. Não ter consciência disso significa não ter consciência de quem somos, de quem poderíamos ser e de como podemos viver com os outros. As palavras expressam e constroem pensamentos. Recorrer a palavras fáceis e conhecidas será sempre não conseguir dar conta da variedade da experiência da vida. Superar a desabilidade é aprender novos jeitos de dizer, aceitar não ter como definir aquele outro que nos parece tão diferente, se abrir ao desconhecido e ao misterioso.