dança para cavalos
ana estaregui

luna parque & fósforo

leia a transcrição

 

 

a escrita é tão natural quanto o chão. a arte é feita da mesma natureza dos peixes. nosso modo de pensar é nosso modo de nascer. dança para cavalos é um livro que não reconhece limites entre o que é natural e o que é construído. 

 

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você consegue sentir? esse poema em voz alta é feito com tudo que há por dentro de um poema. ana estaregui é uma mergulhadora que abre os olhos debaixo d’água. ou alguém que finalmente entende, estamos sempre mergulhando no ar. é desse pensamento que vem sua dança para cavalos, do se encher de natureza para entendê-la, escrevê-la, e finalmente sê-la. 

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o que acontece aqui é que ana estaregui não escreve sobre pedras, sobre plantas, sobre animais. ela escreve a pedra, as plantas, os animais. este é um livro escrito com o idioma natureza, se é que isso é possível. é o próprio fogo que fala, a própria tamareira, a manada em si. aqui, a escrita é a natureza.

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tudo está sempre no limite, as mãos pensando sobre seus papéis, a boca engolindo aquilo que lhe parece. um livro que é como o saber, pois é sempre o corpo que aprende. dança para cavalos é um exercício de ser enquanto se procura entender o que significa ser. escrever para poder se escutar o que está visível. cavar as experiências até encontrar a parte macia delas. encarar a água para saber o que é silêncio e o que é canto.

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é abrir mão dessa ideia de tomar as flores pelo perfume, a cachoeira pela fluidez, os insetos por uma insignificância criada. não existe nada mais minúsculo que essas metáforas limitantes, como se um inseto estivesse sempre em relação e nunca correspondesse a seu próprio tamanho. a poesia aqui é a possibilidade de ser o próprio bicho, o próprio corpo, o próprio espaço de sentidos – a selvageria não como tema, mas como procedimento. poesia como mundo e em contato com o mundo.

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e assim se abolem hierarquias, categorizações, famílias, filos, ordens, reinos. o ritmo se sobressai para que toda palavra seja feita da mesma espécie. faz toda a diferença que o mundo seja investigado com uma lente generosa. ana estaregui faz isso – e esse poema-passeio, poema-dança, poema-mundo é a substância disso.