meus documentos

uma coceira na testa do mundo

uma conversa de felipe andré silva com adelaide ivánova

crônicas, entrevistas, cotidiano

escutando

nill – minha mulher acha que eu sou o brad pitt

Tenho voltado muito a essa imagem, uma foto que tirei umas semanas atrás numa loja de aviamentos, num dia em que decidi aprender crochê. Não sei nada sobre o rapaz que protagoniza a imagem, o que não me impediu de criar infinitas possibilidades para a sua minimamente curiosa presença naquele ambiente e qual seria nossa possível interação. Na minha narrativa favorita ele é Danilo, 27 anos, natural do interior do estado, veio estudar direito na capital e agora é funcionário público concursado. Repara as próprias roupas, hábito adquirido com a mãe, Germânia, e nunca deixado de lado. Depois de conversarmos brevemente sobre agulhas, tomamos um mate gelado, ele conhece meu modestíssimo apartamento, trepamos pela primeira vez. Ainda não sei que Danilo vai partir meu coração dois anos à frente, quando descubro que ele mantinha outra relação em sua cidade natal, com uma moça muito ingênua chamada Samara, que não combina em nada com ele, não o conhece como eu conheço. Doeu na fila do caixa como se fosse verdade, ainda que eu mal tenha visto o rosto dele. Não quero falar de armadilhas monogâmicas ou de amor hoje, mas acho que falei um pouco, pra poder me explicar, para falar um pouco do inverso disso.

Acho lexicamente triste que o peso da palavra traição, tão importante para os contornos e plot twists da história do mundo, tenha se tornado simples ícone da falha trágica que termina as ilusões afetivas de umas tantas pessoas mundo afora. A nossa primeira relação é com o mundo, e ele nunca deixa de nos trair; da promessa de luz fora do útero a uma velhice tranquila com aposentadoria justa, nada está certo, tudo é feito pra que a nossa existência seja abreviada. Daí eu ouço mais uma vez o Lemonade da Beyoncé e penso que é isso aí, estar no mundo, ser traída no seu casamento, fazer disso um comentário sobre a mulher preta sempre traída pelo mundo. Daí eu leio esse “Chifre” da Adelaide Ivánova e penso que é isso, é isso aí também, estamos no mundo antes de decidirmos que é razoável chupar um homem que nos atrai de forma totalmente diferente daquele que nos aguarda em casa, ou que é razoável escrever sobre o homem que nos fez entender com mais clareza porque dói tanto o conceito de ser trocado, ou de fazer um teste de dst e aparecerem coisas insuspeitas, ou perceber que seu parceiro de dança começou a errar sua coreografia mais amada e ensaiada.

Fiquei pensando muito nessa dança enquanto lia. Pensando em algo como os segundos onde o amor faz uma coisa, um passo misterioso no meio da sua dança habitual, e todo mundo, todos os pares, todas as partes ficam tentando entender que dança é aquela, cheia de potencial pra machucar o pé. Mas aí o livro me acompanha, fico feliz, porque ele não é nada sobre isso, é sobre o que vem antes de se estranhar a dancinha estranha do amor, é sobre estar disposto tanto a observar esse espetáculo grotesco quanto a fazer parte dele. Estar no mundo, afinal, que é o que faz a gente se movimentar. Não amar, não o amor, que inclusive tem sido meu tópico mais controverso nesses últimos meses, mas deixemos isso pra outro dia. Hoje eu quis seguir escrevendo histórias, e também conversar com a Adelaide. Tá aí.

Felipe André Silva: Passei boa parte da leitura desse teu livro achando que era muito fácil eu ficar pensando no Lemonade da Beyoncé enquanto lia, só porque de alguma forma a estrutura da narrativa ali também começa com a compreensão da dor que uma falha na geografia do relacionamento causa, mas aí tu citou o nome da própria e eu me senti completamente validado. Mas aí acaba que o livro não vai pelo mesmo caminho de conciliação que a Beyoncé toma ali no Lemonade, e começa a abrir o escopo e afunda a cabeça mais e mais numa inadequação e num desconforto que deixa de ser a dois e se torna estrutural, global. Ou seja, talvez seja mais Everything is Love ou Black is King do que Lemonade. O disparo e a trajetória da escrita também seguiram esse caminho, um desarranjo caseiro que se tornou um debate sobre o mundo e as coisas dele, os machismos dele, as xenofobias dele?

Adelaide Ivánova: “um desarranjo caseiro que se tornou um debate sobre o mundo e as coisas dele” -> amei, amigo, com essa frase virasse o leitor dos sonhos. a premissa é a seguinte: não nos amamos num vácuo, amamos nesse mundo, como ele é ou está, e essas coisas atravessam o sexo/o romance. e vice-versa. enfim, te amei aqui.
meu álbum favorito dela disparado é o “bday”, nao respondo esse por querer ser diferentona, porque na real amo todos (inclusive o 4, que é bem subestimado, é MUITO bom!). o ponto é que o bday e o 4 sao 100% honestos, puro prazer estético rebolativo raparigagem viada com direito a falsete, enquanto que os outros são bons mas pretensiosos. o problema é que milionário sempre caga quando quer ser “””””””””””””””político”””””””””””””, e o lemonade ainda que incrível é disco de mulher rica querendo ser revolucionária, o que é uma contradição irresolvível a não ser que seus milhão estejam a serviço da luta de classes e da emancipação proletária (como engels, por ex.) o que bioncê, claro, nao somente nao está como orgulhosamente não está (afinal dona de meios de produção das indústrias musical e têxtil).
enfim, prefiro rebolar com a consciência limpa, do que intelectualizar com a consciência pesada.

FAS: Pois é, isso que tu fala aqui é um negócio que me pega muito nos teus poemas, que curiosamente parece meio esquecido por um punhado de poetas dos nossos tempos, que a poesia não acontece num lugar descolado do mundo, assim como o amor, a morte, a política, o que quer que seja, não tem seus próprios campos de batalha, eles são um só com o mundo. O que eu estou querendo dizer e tentando evitar ser shady é: o que tu acha de quem põe a forma e o estilo acima de tudo?

AI: será que importa o que eu acho? saca? tipo, tem dia que tudo o que gente precisa é de um bom e velho poema que fale de dor de alma, uns poema-drama tipo ingeborg bachmann, safo, umas anne carson da vida, matilde campilho. e tem dia que a gente tá pistola e tá precisando de um poema de roque dalton, de uma ana montenegro, de uma bell puã, um maiakovski. deus me livre de dizer o que o povo tem ou nao tem que fazer.
agora, é claro que eu tenho preferência pessoal, como leitora e como educadora, por poetas que têm sensibilidade pro fato de que a rapadura é doce mas não é mole, ou seja, poetas que sabem que vivemos/nos apaixonamos/trepamos/pensamos na morte da bezerra num mundo deformado pelo capitalismo, que também deforma nossas relações, nossas subjetividades, nosso potencial infinito pra delicadeza.

FAS: Tem lugar pra essas pessoas?

AI: claro que tem! nem sempre fica bom, claro, mas um momento de restauro existencial é importante também. aliás, o restauro existencial pode vir inclusive num poema super politizado. drummond, mas não somente, fazia isso muito bem.

FAS: Falar mal de poeta faz de alguém um poeta melhor? (Essa pergunta é um shade mais pronunciado pra um pessoal meio estranho, agarrado num passado sem gosto.)

AI: hahahaha shêide! eu acho que falar mal de racista, por exemplo, nao faz de ninguém antirracista. a pergunta é o que você faz pra desmantelar o capitalismo racial, né? assim sendo óbvio que falar mal de poeta não faz de ninguém poeta melhor. tipo, falar mal, fofocar, é bom demais, todo mundo faz e tudo certo. o que eu acho ozzy é quem acha quem confunde fofoca com crítica literária, usa um espaço e em vez de publicar uma resenha publica uma matação. eu já devo ter feito muito isso na vida, não profissionalmente falando mas com certeza no finado facebook, nao sou nenhuma santa, mas acho que melhorei, espero ter melhorado, tento melhorar.

FAS: Que música estás ouvindo agora?

AI: as mesmas desde 1998: nirvana, hole, pearl jam, marilyn manson, david bowie, elastica, beck, fiona apple, chico science & nação zumbi, racionais, escuto muito caetano, também, politicamente acho ele um completo abilolado, mas sigo apaixonada pela música.
e forró, claro, que eu sou colonizada mas não sou besta.
co-escrevi umas letras pra umas músicas do meu amigo de recife josé demóstenes e tenho ouvido ele, também. e minha nova paixão é essa galera aqui, trio unidos do norte, é bom demais, mas parece que só têm esse disco, dos anos 70. tô atrás pra descobrir mais, eles são maranhenses e parece que ainda tem um outro vivo.

morreremos todos
está claro
ninguém vai pro céu
(aprendi com italo)
e eu acho é pouco

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chifre

adelaide ivánova

PÁGINAS
100

EDITORA
edições macondo

FAS: Tem uma coisa interessante que acontece mais em Chifre que nos teus outros livros, acho eu, que é uma meditação sobre o “drama do estrangeiro”, que se faz notar tanto em poemas que falam diretamente sobre se perceber “diferente” em outro país, quanto em coisas lindas como ‘os anos noventa’, que te posicionam muito especificamente num país que é teu, num momento histórico. minha curiosidade é sobretudo mais prática: viver falando outra língua e vivendo outra cultura muda o ritmo da fala, muda as imagens que te tocam, muda a maneira de construir um poema?

AI: sim, vou ser safada e dar um crtl c+ctrl v na resposta que dei a sérgio maciel, sobre isso, uns anos atrás: “as duas línguas protagonizam partes bem diferentes da vida. A língua materna acaba virando uma coisa meio preciosa, usada exclusivamente para produzir – não há desperdício. E aí tem outra coisa maravilhosa: a língua do dia a dia (no caso, a alemã) vira uma grande encenação, por ser a língua dos afetos diários mas que sempre sempre sempre será insuficiente, mesmo que a pessoa domine a língua. Então tudo vira um tipo de teatro, e a língua materna está a salvo das chantagens das paixões, e pode existir divina e maravilhosa e soberana na escrita, sem afetações.”

FAS: E esse Chifre, o que é?

AI: é um monte de coisa. o que eu dei, o que levei, o que deste o que levaste, o que os porcos selvagens usam pra caçar trufa, é chifre que enfeita carro de boi, é tanta coisa!

FAS: Eu tirei muito das tuas coisas que li a força que eu precisava pra escrever e filmar e falar sobre abuso sexual, mas ao mesmo tempo que sinto que esse assunto nunca via deixar de render no meu corpo e na minha cabeça, comecei a sentir como se me repetisse, como se os disparadores fossem os mesmos. Chifre não é o livro que o Martelo era mas dá pra sentir, ou notar, que tem essa sombra de violência pairando ali também. Tu tem medo de se repetir ou tu acha que é do jogo, é quem somos, é quem tu é, a repetição faz parte?

AI: não sei direito, nunca pensei nisso. eu tenho madonna como uma das referências mais fortes da minha vida, e acho que a lição que ela deixa pra história da arte é a capacidade de reinvenção e de conseguir mesclar noia perfeccionista com auto-esculacho. queria ser assim. acho que meu maior medo é o de não estar à altura dos tempos que vivo.

FAS: Eu nunca esqueci uma fala de Adirley Queirós numa edição do Janela, falando sobre a descrença dele com a função social do cinema, que aquela plateia classe média não ia mudar o mundo depois de ver um filme que falasse da desgraça dele. Recentemente teve uma edição daquela Antologia Poética da Revista Cult e eu achei a maioria dos textos muito ruins, uma coisa meio jogral, rimando amor e dor e falando de luto e luta de um jeito meio esvaziado, meio adolescente. Eu fico achando que é talvez uma limitação minha, não conseguir enxergar a “potência poética” (??) em textos que me parecem oportunistas. Não organizei bem esses pensamentos. Tu acha que existe boa poesia “combativa” sendo feita agora? Caso sim, o que é isso? (Acho que tu mesma faz, de alguma forma, mas me diz.)

AI: essa pergunta é difícil de responder rápido. acho que a gente precisa tirar esse peso político-moralista das costas da produção cultural. poesia sozinha não vai mudar o mundo, precisamos aceitar isso. isso serve tanto pra quem acha que basta escrever um poema reclamando de bolsonaro que isso faz de vocês um poeta combativo, quanto pra quem acha que isso nao vale de nada, que arte e cultura são irrelevantes na tarefa histórica de lutar por um mundo mais justo e na construção do socialismo. precisamos estar cientes destes dois aspectos.
nao tem nada mais horroroso do que usar termos como “esquerda cirandeira”, nem nada mais chato do que quem acha que o lênin da poesia só porque escreveu uns poema sobre esse mundo terrível, mas nunca pisou numa reunião de partido, de sindicato, de coletivo. em outras palavras: poemas podem ser combativos no conteúdo, mas o poeta só pode ser chamado de combativo se fizer parte da luta organizada. o resto é retórica.

FAS: No mais, me indica um livro?

AI: essas quatro indicações não são aleatórias, elas dialogam entre si: “vento nordeste” de permínio asfora, “cacau” de jorge amado, “camarada” de jodi dean e “o legado do lekra – organizando a cultura revolucionária na indonésia”, dossiê #35 do instituto tricontinental de pesquisa social, publicado pela expressao popular.

felipe andré silva

é cineasta e poeta.