carinhoso
ana carolina assis

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um dia desses, estava conversando com uma pessoa e ela ironizava a quantidade de livros de literatura contemporanea que vinham com um aviso de URGENTE nas sinopses. qualquer história minimamente alarmista ou distópica ou engajada ou qualquer poesia que seja o que a gente convencionou a chamar de poesia política vai ser chamada de urgente, necessária, fundamental para os dias de hoje.

porém, olhando pra um tempo em que ninguém aguenta mais tanta velocidade, ninguém aguenta mais tanta demanda, o que é realmente fundamental? longe de mim, dizer que o carinhoso, da ana carolina assis, é esse livro URGENTE e NECESSÁRIO, eu digo justamente o contrário inclusive. a poesia da ana carolina assis se coloca no lado oposto de tudo isso – e por isso trás tanto alento pra quem lê. num tempo em que tudo ao redor exige atenção, nada mais atencioso do que se permitir olhar pra dentro, pras nossas próprias emoções, seguir um livro escrito com um tempo interno. caminhar por um outro sentido de urgência, porque o cuidado é realmente urgente agora.

em carinhoso, ana carolina assis escreve sobre o amor, a afetividade de pontos de vista diversos – lembrando a primeira vez que alguém a ensinou uma coisa importante, o amor por quem se cruzaria toda uma cidade para ver, a relação que se sustenta pelos meios digitais e nem por isso é menos próxima. é sobre o desejo de ser melhor para fazer o bem para quem se ama, sobre reconhecer detalhes nas atitudes de alguém para continuar se apaixonando por cada coisa que ela faça exatamente igual, sobre colecionar palavras junto a outra pessoa ou saber que é possível gerar entedimentos mesmo sem palavra alguma.

os versos de ana carolina assis são de cortes inesperados, mas que ainda carregam uma delicadeza nas imagens. a poeta vai conjugando um corpo e seus gestos e, justamente por isso, existe algo em cada página desse livro é um convite a lembrar de arrepios, toques, sorrisos, ardências que você só sente na companhia daquela pessoa especial – e era exatamente essa a urgência que queria, a urgência que parece estar latente em todo o mundo desde o ano passado. é urgente dar um sorriso besta.

é lógico que falar de amor, às vezes é também falar de arrependimentos, de frustrações, de términos. de amores que ficaram pra trás porque não sabíamos direito como fazer pra sentir a coragem necessária para dançar com alguém enquanto todos nos olham. o importante aqui, porém, é não olhar para o passado com culpa, não escrever uma poesia para se martirizar. pedir perdão é amar ainda. carinhoso é também sobre olhar com ternura pelo que foi ficando pelo que caminho, ser gentil com as histórias que nos formaram e nos permitiram amar outros amores.

amores com quem desbravaríamos qualquer lugar desconhecido. amores para quem dedicamos memes, músicas, figurinhas. amores que se declararam e então sumiram. amores para quem declarações nem são necessárias. amores que mesmo no meio da urgencia carregamos conosco.