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caldo

quando
me deu as costas,
eu vi
o mar.

crônicas, cotidiano, humor

lendo

desalinho,
laura liuzzi

Meu pai me chamou no quiosque e disse baixinho, entre risadas, que queria fazer xixi no mar. Como eu queria nadar, o acompanhei e, no caminho, fiquei preocupada com a urina, se ela chegaria no meu pedaço do mar… Eram quatro da tarde e as ondas não estavam mais tão calmas. Ele avisou que estava indo pro fundo, pediu para eu ficar onde a água bate nos joelhos e quando me deu as costas, eu vi o mar. Talvez tenha sido a primeira vez que o olhei, mesmo tendo ido várias vezes para aquela mesma praia em verões tão abafados quanto aquele.

Lá longe, o oceano ia de encontro ao vento, que suspendia suas águas formando pequenas ondulações sobre a superfície. Mais perto da areia chegavam as ondas maiores, que por ali se desfaziam para serem puxadas de volta pela maré. Depois, elas retornavam à superfície, sofriam outros ataques do vento e de novo se desmanchavam na areia, cumprindo o movimento cíclico de um mar que é sempre o mesmo, ainda que diferente.

Naquele dia, comecei a passar por cima das ondas, quando ainda não tinham quebrado, e a nadar por debaixo delas, quando pareciam que iam se enfurecer bem em cima de mim. Ficava grata por meu pai não estar olhando e até do xixi eu esqueci. Sem seus cuidados, eu poderia explorar até onde minha coragem permitisse. Enquanto ficava cada vez mais fundo, eu tentava colocar em frases o que estava aprendendo, queria usá-las depois para convencê-lo de que eu já era grande e sabia encarar o mar sozinha.

Quando a água estava quase no meu peito, senti a força da maré puxar meus pés e virei as costas pro mar, pra nadar rumo ao raso. Foi assim que uma onda fortíssima me engoliu, eu não a ouvi chegar. Em um segundo estava nadando, no outro, meus braços estavam desorientados, perdidos na intensidade do mar. O ar ficava cada vez menor em meus pulmões, então abri os olhos. No meio da onda, com as retinas ardendo de sal, vi meu cabelo efervescente na espuma e enxerguei algumas imagens desconexas da minha curta vida.

Quando voltei a superfície, avistei meu pai e, trêmula, corri para pegar em sua mão. Não usei nenhuma das frases planejadas e, também, não contei sobre meu primeiro caldo, com medo de que ele pudesse me repreender. Na volta para o quiosque, só o mar fazia barulho.

tayná gonçalves

é jornalista multimídia e publica seus textos no Leituras.