O NERVO EXPOSTO
ㅤㅤㅤㅤ DO MEU
DENTE
uma conversa de felipe andré silva com GIANNI GIANNI
ESCUTANDO
pawsa – too cool to be careless
Talvez essa dor de dente sirva pra me lembrar de estar presente. É um bom jeito de voltar. Essa frase, essa dor. Reabri essa pasta de documentos depois de alguns eventos importantes que me fizeram buscar a palavra novamente. A sobriedade, a batalha com uma doença traiçoeira, a descoberta da paixão durante o carnaval e sua confirmação no vão do IMS Paulista, um dente que dói e te lembra de viver, não deixar de sentir coisas. Um amigo querido postou sobre sua dor de dente, e como de desconforto ela se tornou uma infecção com potencial para matá-lo. Me lembrou de cuidar de mim que, agora, uso a boca para ditar essas ideias. O mundo mudou muito nos três anos que não escrevi aqui, mudei também, assim como o eu lírico de Gianni, mordi um cacto. Ainda dói, mas estou vivo.
As sequelas são claras, o medo de estar vivo, de ser uma pessoa que opina, de começar a tremer quando a temperatura muda bruscamente, está tudo lá, mas é o que precisamos, todos nós, pra voltar a sentir o mundo; sentir sua temperatura mudando brutalmente. Voltando de São Paulo, tive uma violentíssima crise de ansiedade por conta das turbulências brutais que sacudiram o avião. Pensei que era chegada a hora, mas não era. Em Cacto na Boca me parece que chega a hora da personagem também, uma hora outra, de se entender exposta no mundo, como o nervo do meu dente que lateja agora, como mulher, negra, em novo processo de autodescoberta, colocando amores e dores na balança.
Levei muitos anos para saber quem era essa autora, que eu conhecia de nome, do universo arte-jornalismo-cultura recifense. Pelas fotos sempre me pareceu uma pessoa muito meiga, talvez fosse e siga sendo, mas Gianni, assim como seu texto, sempre foi (ou tornou-se?) o tipo de pessoa que aponta para a inconsistência do quadro, para o buraco de bala e diz “ali, como funciona essa dor, como é ser estranho no mundo?”, são raros esses, artistas e pessoas. Seu Cacto é a continuação desse projeto de olhar pro mundo e não ter medo de perguntar coisas, mas também de lhe devolver coisas. Há muito de cartografia e geografia sentimental na poesia contemporânea brasileira, e tudo bem, exceto quando essas imagens viram o único mapa possível para suas discussões. Nessa breve conversa Gianni fala de caminhos outros, outros mapas, atear fogo aos mapas que nos oferecem.


cacto na boca
gianni gianni
círculo de poemas
40 páginas
Felipe André Silva: Você acha que é importante dar nomes às coisas, aplicar gêneros, circunscrever criações dentro de um recorte específico? Eu pergunto isso porque o teu livro começa pegando na mão de Antônio Houaiss e pensando no dicionário, pensando em verbetes. Você abre o livro definindo coisas e se torna um jogo imenso, um amontoado de definições que conduzem a gente pra dentro da palavra, e pra dentro dessa trama. E aí em dado momento, tu fala de um ataque narcísico, de um poema narcísico que nem poema consegue chegar a ser; interrogação. É importante, na leitura, a gente saber o que a coisa é e o que ela não é?
Gianni Gianni: Para começar, eu diria que a minha preocupação em termos de o que é o gênero, o que pode um gênero e quais as torções que me interessam naquele gênero, esse tipo de reflexão, ou de problemática, varia projeto a projeto. No caso do Cacto, eu acho que um caminho de resposta mais simples seria dizer que não, não me interessa como as pessoas vão categorizar o livro, pensando muito nesse cenário da produção contemporânea, daquilo que a Florencia Garramuño chamou de frutos estranhos, essa coisa de borrar as fronteiras entre campos artísticos. Essa seria uma resposta possível. Mas, no momento em que gêneros tão delimitados estão ali costurados e postos em relação, eu acho que não dá pra dizer que essa reflexão não me interessa — a reflexão dos formatos, daquilo que dá contorno aos diversos gêneros textuais.
Eu gosto desse exercício de colocar essa variedade em relação. É muito claro ali o que remete a um roteiro, o que remete a um texto instrucional, o que remete a um verbete. Então mais do que trabalhar numa perspectiva de que as definições de gêneros não me interessam, eu acho que, no Cacto sobretudo, eu gosto de pensar como os diversos gêneros dialogam e como a poesia é um campo que sempre se valeu um pouco disso, dessa possibilidade de ser poesia a partir das engrenagens que outros gêneros propõem. Claro que, quando eu falo “sempre se valeu”, eu tô falando, principalmente, do Modernismo pra cá.
Quando eu comecei a escrever essa plaquete, primeiro veio a imagem do cacto na boca, e aí vieram, eu acho, dois conjuntos de textos:, algumas das cenas, que tem no livro, e alguns dos instrucionais, que são os exercícios cênicos. Daí, quando Tarso [de Melo, editor do Círculo de Poemas] me chamou para publicar, me perguntou se eu tinha algum material, eu fui revisitar esses esboços e comecei a pensar numa unidade. No momento que eu vi aquilo que eu tinha começado a desenhar, que eu fui pensar na costura de um projeto, eu entendi que o que eu tinha feito em torno dessa imagem foi, justamente, jogar com ela em gêneros diversos.
Então, tem um aspecto lúdico. Claro, tem um assunto por trás, um tema que paira ali, mas, de partida, o que eu tinha eram alguns jogos mesmo, digamos assim, com os gêneros a partir dessa mesma imagem. Quando Tarso me pediu um original e eu voltei lá, eu fui tentar entender como é que eu continuava a jogar com aquilo.
FAS: Propondo uma deriva aqui, porque recentemente voltei a pensar na ideia de armadilha da identidade proposta por Asad Haider, e como às vezes os debates identitários se colocam na frente da forma ou da construção estética, e não é um problema que isso aconteça, até que se torna um problema. O teu livro parece quase que uma provocação muito bem elaborada, muito bem posicionada de gênero e de raça. Isso surge como um disparador para a criação do livro? Esse debate, nesse tipo de chave um pouco menos rígida, um pouco melhor acabada?
GG: A questão de identidade, de identidade racial, se tornou algo muito central na minha vida nos últimos anos. É uma questão pessoal que eu venho elaborando tardiamente por um conjunto de fatores. Isso atravessa o livro muito conscientemente enquanto um tema que eu escolho, esse tema identitário. Algo que me atormenta e para o qual eu tenho que encontrar as minhas próprias soluções é o fato de que a minha formação literária até aqui foi uma formação extremamente canônica, eurocêntrica. O meu campo de referências, meu repertório, tanto se eu penso colégio, universidade, mestrado, é um repertório extremamente colonizado, ou prioritariamente colonizado. Junto com o mundo, o país, as tendências teóricas, intelectuais, eu vou entendendo tardiamente a importância de repensar isso.
Claro que, na minha vida pré-acadêmica, eu tenho um conjunto de referências muito mais racializadas que tem a ver com o lugar de onde eu venho, com a minha família, da minha infância. No geral, no meu caso, essa bagagem tem muito mais elementos de cultura de massa. Há algo de cultura popular, de tradição afroindígena, dos saberes cotidianos que circulavam na minha vida pessoal e que eu começo a perceber e sistematizar melhor quando eu me distancio um pouco da universidade, mas, no geral, eu não venho de uma família que pensa raça ou que se orgulha de sua negritude historicamente, isso é algo que começa na minha geração, dentro de um contexto social bem específico. Na minha linhagem, as questões de raça estão muito mais atreladas à experiência e ao sentimento do auto-ódio, como uma consequência da colonialidade, um resquício da escravidão.
Então, nesse sentido, a minha encruzilhada tem sido a minha própria experiência: por um lado, minha condição de escritora negra com uma série de questões sobre colorismo e passabilidade, tudo isso que me acompanha fortemente, e do outro a minha formação nesses anos todos, que esteve numa outra direção e que me trouxe um repertório em termos de experimentação, de elaborações estéticas, de construções formais, de discussões de vanguarda que foram extremamente europeias, mas que é um repertório estético que me interessa também, que eu gosto de manipular, tentar subverter. É um modo de se relacionar com a linguagem que eu aprendi dentro de um contexto, e que ainda me contempla. Agora, claro que hoje eu coloco isso em diálogo com outras referências, eu trabalho para expandir e para descolonizar, para me desfazer do que considero nocivo e irrelevante nesse mesmo percurso.
O Cacto tem a ver com esse exercício de entender o meu lugar autoral, de artista de escritório inclusive. Eu não sou uma escritora preta da quebrada, por mais que eu tenha crescido no subúrbio, eu não tenho a mesma formação de uma poeta do slam. Eu acho que a plaquete é uma tentativa de encontrar o meu modo de pôr essas coisas em diálogo, sabe? O que eu trago de repertório literário, ou o que me interessa construir em termos de linguagem, e como as minhas questões identitárias estão, sim, atravessando isso, mas que eu penso a partir das ferramentas que eu consegui juntar nesse meu tempo de vida, nesse meu tempo de leitura, escrita e pensamento.
E acho que de algum modo ele também põe luz no fato de que os escritores e escritoras negras do Brasil possuem trajetórias muito variadas, com repertórios e projetos diversos; então essa discussão toda em torno do que seria uma “poesia identitária” corre o risco de virar uma muleta da crítica literária, que muitas vezes me parece estar se apoiando em um conceito esvaziado. Você pega o meu livro, aí um mês antes saiu o de Natasha Félix, saiu o de Bianca Gonçalves… Eu acho que podem ter pontos de contato até, mas eu diria que os projetos são muito individuais. E aí se você vai pra Lubi Prates, vai pra Stephanie Borges, vai pra Tatiana Nascimento… O que é que você está chamando de um projeto identitário de mulheres racializadas? E aí vai pra Bell Puã, vai pra Luna Vitrolira… Enfim, são muitos. Em termos formais, em termos de construção de obra, eu acho que é meio preguiçoso colocar projetos tão variados dentro de um guarda-chuva chamado poesia identitária.
Agora, uma última coisa: quando eu menciono as escolhas que eu faço e por onde eu não vou, isso não tem a ver com uma hierarquia desses projetos estéticos ou modos de criar. Eu, inclusive, adoraria ter mais potencial ou mais autoconfiança performática. Eu não acho que é algo que eu faça bem, e eu gosto muito de ver campeonato de slam, eu tenho uma relação forte com o rap e eu seria muito feliz se eu fosse mais popstar nesse sentido, fizesse um projeto como o que Natasha Felix faz hoje, que eu acho incrível. Mas penso que um trabalho de criação, de escrita, tem a ver com escolhas, limitações e circunstâncias, que me deram determinadas ferramentas até agora e outras não.
o crítico que não aprecia a egolatria despudorada considera a “poética identitária” tão “urgente” quanto “redundante”
FAS: No ‘é feito em círculos’, teu primeiro livro, tem um momento em que você fala que “estar no mundo fisicamente exige uma certa segurança”, e aí eu lembrei que uma vez você me perguntou minha opinião sobre o conceito de gatilho, e eu te falei que gatilho não existia, porque na minha concepção o mundo inteiro era um gatilho. E aí lendo o Cacto na Boca, ele me parece um livro um pouco menos encantado com o mundo, e não que o anterior fosse particularmente encantado, mas era um livro mais poético no sentido de encontrar alguma beleza, encontrar alguma alucinação nas coisas do mundo, nas pessoas no mundo. O Cacto, também pela dimensão, é mais direto, é um pouco menos iludido se essa palavra é a que eu quero usar. O que é que mudou na poeta e o que é que mudou na maneira da poeta fazer os poemas? Ainda dá para fazer poesia nesse mundo, dá pra se iludir?
GG: É curioso, acho que até brinquei em relação a isso, dizendo que de algum modo esses dois livros me parecem falar de um mesmo assunto, de um mesmo canal de preocupação, e o que eu tenho pensado em escrever agora vai numa direção muito diferente, até porque é um projeto de prosa. Mas, de fato, eu acho que esses dois livros, juntos, são uma elaboração desse gesto inicial de escrita, desse momento em que eu digo: “vamos lá, sou escritora, tá na hora de publicar algo, de organizar os projetos”. E talvez esse primeiro grande vômito, como eu coloco no Cacto, é justamente essa dificuldade da escrita. Só que não se trata da dificuldade de que falavam os escritores modernos — em sua maioria homens, brancos, de classe média —, a dificuldade imposta pela própria linguagem, sua precariedade e limitação, das palavras não darem conta do que se deseja exprimir… Existe toda essa reflexão na poesia, de que eu também gosto, mas a dificuldade de que estou falando é a do silenciamento estrutural.
Então, que tipo de parto é esse que é se colocar no mundo enquanto pessoa racializada e dizer: “escrevi isso, vem cá, veja!”. A dificuldade de criadores subalternos de se autorizarem a ocupar espaços, a dizer as suas palavras. Isso eu acho que é assunto dos dois livros. Agora o é feito em círculos é um livro do contentamento. Ele tem um traço mais conciliatório, embora traga algumas alfinetadas, menos frontais, que dizem respeito a alguns debates da própria teoria da literatura, da disputa em relação ao que se chama de uma poesia da experiência, mas é tudo muito sutil. Eu acho que ele tem uma cacterística mais conciliatória e mais esperançosa em alguns aspectos.
E aí eu acho que tenho, sim, um lado muito conciliatório, mas eu sou muito colérica também. É engraçado, talvez um pouco contraditório, mas eu acho que essas duas habitam em mim, e a minha relação com a raiva é tão intensa que eu tendo a ser muito cautelosa no modo de dar vazão, porque eu já tive episódios de catarses de raiva muito delicados. Então eu precisei retornar aos mesmos gatilhos que impulsionaram o [é feito em] círculos, a partir desse motor da raiva, no Cacto. Talvez só agora eu sinto que eu sou uma escritora no mundo. Porque eu acho que essas duas faces falam de mim, a conciliatória e a extremamente raivosa.
No entanto, o que eu realmente não queria é que a raiva fosse o motor da minha escrita permanentemente, porque é uma emoção muito desgastante, muito destrutiva. Porém, é indiscutível que ela me fortaleceu em momentos importantes da minha vida, e esse livro talvez seja um tributo a essa verve colérica. Pessoalmente, foi muito difícil de assisti-lo ficar pronto. Eu fiquei muito mexida e sinto que, como diz o verso que encerra o [é feito em] círculos, “agora eu preciso começar a fazer alguma coisa”. Eu acho que de algum modo é o verso que ecoa para mim depois do último verso do Cacto, que é “e aí eu decidi vomitar”. Acho que, depois disso, é como se eu sentisse que vem de novo aquele verso: agora eu preciso começar a fazer alguma coisa.
FA: Precisamos. Por aqui estou tentando. No mais, me indica um livro?
GG: Como esta é a primeira vez que estou falando do Cacto na boca, eu vou indicar o By heart e outras peças, de Tiago Rodrigues, que saiu pela Editora 34 em 2021. Eu vi uma peça dirigida por ele, que está nesse livro, em 2013, em Dublin; saí do espetáculo maravilhada. Daí fiquei bem feliz quando Leonardo Gandolfi editou o trabalho dele aqui no Brasil.
Eu voltei nessa publicação quando estava escrevendo o Cacto, justamente pelo tipo de experimentação de linguagem que ele conduz no âmbito da dramaturgia. Essa leitura me ajudou a instaurar essa espécie de promiscuidade entre poema e cena que existe na plaquete.

felipe andré silva
é cineasta e poeta.
