eu confundi um vaga-lume com um acidente de avião

vinicius mahier

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eu confundi um vaga-lume com um acidente de avião – é uma viagem. o passageiro se senta na poltrona, afivela os cintos e depois observa passar pela janela uma paisagem de catástrofes – explosões, amores em queda, pedaços de cultura voando sem sentido. cada vez que o destino parece chegar perto, cada vez que o verso parece se render ao clichê, o avião faz um desvio.

a poesia do vinicius mahier é feita pra quem quer sair do piloto automatico. porque a espontaneidade que ele traça ao quebrar cada verso é cuidadosa demais, foi feita pra extrair o ridiculo do cotidiano: poesia sobre calvicie, sobre a breguice dos dentes de ouros, sobre fritar um ovo, sobre se manter ilegível diante de todas as circunstancias.

esse é um livro viajado. existe algo de absurdo, de bobagem, de ridículo aqui que chama a atenção de cara. o plano de voo é esse: começar o livro e só parar quando acabar. gastar a voz como uma comissária de bordo sem microfone. ler um poema atrás do outro e começar a perceber como não é possível olhar pro mundo sem pensar em confusão. porque é exatamente assim que funciona a linguagem: toda palavra aciona um desastre próprio, um voo instável, uma turbulência. ainda mais agora, quando fazer piada exige muita seriedade.

esse é um avião que volta alto para atingir a cultura, mas acaba esbarrando naquilo que chamam de baixo. é a cultura rasteira alçando voo lado a lado com clássicos cultuados. xuxa meneghel em diálogo com walt whitman. silvio santos abrindo a porta pro ionesco. homero assistindo leonardo dicaprio. charles baudelaire flanando pela cidade cenografica da novela das nove. a tradição voando de cabeça pra baixo. pegue seu clichê favorito e arremesse pela janela.

o fim da viagem nunca é o lugar comum.