por

ㅤㅤ uma economia

ㅤdos restos

sabina anzuategui ironiza a vida nas grandes cidades ao olhar o trabalho e os relacionamentos pelos olhos de “uma mulher sem ambição”.

segunda-feira

Chego na repartição e olho atento ao redor, tentando encontrar alguma fila óbvia ou uma pessoa que possa me dar informações. Depois de dois ou três minutos transmitindo um olhar perdido (e um sorriso perdido escondido na máscara), um senhor com uma camisa com menos botões do que recomenda o bom senso cutuca meu ombro e aponta para uma máquina de senhas. Sou o número 349.

Procuro uma cadeira para esperar com algum conforto enquanto penso que não somente as calçadas e lojas se enchem para o Natal, mas também os órgãos públicos, cheios de pessoas afoitas para terminar o ano sem pendências, resolvendo as últimas burocracias para começar 2022 com novos papéis carimbados e autenticados numa pasta plástica. No meu caso, uma documentação exigida num processo que envolve grandes empresas, indenizações, danos morais e quatro anos sem saneamento básico.

Começo a leitura de Uma mulher sem ambição ali mesmo, o diário de uma mulher que acaba de se divorciar, se muda para uma quitinete empoeirada que é propriedade do pai e faz malabarismos para fazer o dinheiro durar até o fim do mês. Entre encontros com parceiros sexuais e a rotina de professora numa escola de cinema que paga mal, Mercedes se coloca entre trabalhar mais para ganhar mais ou acreditar que alguma experiência produtiva sairá dos seus momentos de ócio.

O alarme toca chamando o número 291. Automaticamente sinto fome.

Eu gostaria de beber uma Coca-Cola, uma dose artificial de alegria cairia bem neste momento, mas tenho só quinze reais na carteira.

uma mulher sem ambição
sabina anzuategui

dba
160 páginas

terça-feira

Começo a perceber que o livro é um recorte sem tanto propósito, sem uma jornada engrandecedora para a protagonista. Esqueça: ela não está em busca de uma virada em sua vida, não quer ser alguém melhor, não tem tanta energia para erguer planos. É como mandar um currículo para dezenas de vagas diferentes, o vazio quando se lembra que empresas raramente mandam uma resposta quando você não é selecionado: você espera e nada acontece.

É por causa da personalidade ora melancólica, ora ácida de Mercedes que continuo acompanhando esses (conferindo o índice) vinte e poucos dias com atenção e velocidade. Críticas ao academicismo, leituras teóricas que não podem ser aplicadas a sua vida prática, curiosidades aleatórias advindas da Wikipédia: nada escapa das avaliações precisas da voz criada por Anzuategui. O saldo no banco caindo um lance de escadas, o gerenciamento de tempo como habilidade para um jogo virtual, o conceito de descansar antes mesmo do início do expediente.

Almoço com a Má e fico ali, na mesa, pensando nos termos da economia dos restos de que fala o livro. Eu como um PF com peixe (-22 reais no saldo) enquanto ela fala sobre seus últimos relacionamentos.

Os homens não querem saber de compromisso, mas Má tenta criar relações longas e duradouras com cada um deles. O espaço que ela poderia utilizar no cérebro para aprender novas receitas ou decorar curiosidades sobre cinema que vão ser úteis numa mesa de bar está fazendo malabarismos com dados sobre quatro homens e seus diferentes gostos, histórias, times do coração e horários de emprego. Cada resposta recebida no Whatsapp exige um grande tempo de elaboração, o que envolve ler e reler em entonações distintas e admitir possibilidades divergentes para cada uma: ele ainda quer me encontrar no fim de semana ou já posso preparar o look do barzinho com a Dê? 

Duas vezes por semana ela acorda ansiosa, por volta das quatro da manhã, com medo de quando o chefe descobrir como ela usa o computador da empresa (pesquisando os usos correntes de cada emoji num dicionário informal da internet no tempo em que deveria revisar os briefings repassados diariamente) e então gasta o resto da madrugada se lembrando dos amigos a quem ela poderia pedir uma vaga num emprego novo e ensaiando mentalmente suas habilidades, sua experiência, seu currículo para uma suposta entrevista. O teatro só acaba quando ela se lembra que a mensagem enviada para o Homem nº 03 está há nove horas sem resposta e esse fato se torna sua nova ideia fixa.

Limpo o prato e Má ainda reclama de como nada em sua vida tem fluído, do medo recorrente da justa causa, do fracasso perante as amigas já com filhos, perante a mãe que adoraria um neto. Como eu faço para me concentrar, amigo?

Faz uma dívida, eu respondo. Coloca seu nome no SERASA. É o incentivo que você precisa pra sua produtividade explodir.

Não peço sobremesa.

Economia sustentável é um tema incômodo numa época em que mal consigo me sustentar.
Eu deveria ler sobre economia dos restos: como sobreviver comendo mandioca durante uma semana inteira.

quarta-feira

Eu sonho que um carteiro vem me entregar envelopes. Nada de estranho até aí, pois são o que carteiros fazem, entregam envelopes. 

No sonho, porém, recebo centenas deles, em diferentes formas, tamanhos, cores. São faturas, com diferentes logomarcas, valores e datas de vencimento em cada um. Água. Luz. Energia. Internet. Abro os primeiros e me deparo com necessidades básicas, contudo, logo percebo que eles vão se tornando todas as compras por impulso que já fiz na vida, desde a infância. TV a cabo. Lojas de departamento. Livraria que faliu. Air Fryer. Auto escola que repeti quatro vezes. Passeio de lancha. Biscoito Globo. Skol 3 por 10 (que virou 12 por 40 muito rapidamente). Molho de tomate caro. Pote de Pringles. Pizza em dia útil. Bermudas. Artesanato caiçara. Ida e volta de Uber. Café gelado em fim de mês. Caixa de lápis 24 cores. Que merda, eu penso, como fui inventar tudo isso?

O carteiro sobe na bicicleta, desce a rua, eu acordo, ainda em pânico.

Me acalmo na cama, continuando a leitura. Perco a hora e pulo o café da manhã. 

Saldo positivo.

O universo me força à coerência: é mais fácil manter minha resolução de simplicidade se não aparecem outras opções.

quinta-feira

Uma mulher sem ambição retrata bem pessoas que acreditam numa idealização do mercado e do trabalho numa grande metrópole como São Paulo, onde é preciso demonstrar valores enquanto se esbarra em preços descabidos. Gente para quem o trabalho não pode ser apenas um meio de pagar todas as contas, mas uma atividade que deve vir incutida de significado e ajudar no desenvolvimento pessoal. 

Repare como somos brilhantes!
Trabalhamos com nossos talentos! 

Não gostamos de roupa apertada, não gostamos desses políticos, passamos férias em cidades pequenas, temos jargões em outro idioma, compartilhamos tarefas, rimos apenas do que é politicamente correto, não concebemos retrocessos e sofremos pessoalmente quando eles acontecem.

Uma geração de pessoas comprometidas em ocupar a cidade (estender uma canga em espaço público é lazer gratuito), ecologicamente responsáveis (transporte coletivo é mais barato que gasolina), minimalistas (pouco ou nenhum poder de compra), generosas com a diversidade (pink money). Não, eles não vão ter carros, não vão comprar imóveis, não vão ter muitos filhos – e vão ignorar a conjuntura econômica ao nomear tudo isso resistência.

É muito fácil dizer a mim mesmo quando vou me deitar: amanhã serei mais focado, mais obstinado, não vou procrastinar, vou responder a mensagem da minha mãe e confirmar que estou bem e não preciso da ajuda dela esse mês, mesmo que eu precise, falar de novo com a Dani, me aproximar mais do Edson, procurar por mais colegas da época da faculdade no Linkedin e conferir se não consigo aumentar pelo menos um pouquinho meu currículo, fazer compras para cozinhar em casa no fim de semana, e não comprar cerveja dessa vez, nem vou passar no corredor das bebidas. Quero ser mais seguro e tranquilo. Acordar, meditar, passar o café, limpar, fazer feira, cozinhar, entreter, focar, escrever, revisar, enviar, escrever, revisar, enviar, escrever, revisar, enviar, exercitar, tomar banho, esquentar, deitar. Chegar ao fim do dia sem palpitações, sem respiração alterada, com o coração controlado. Mas, então, acontece um lapso e depois um reflexo e quando eu vejo não corri na orla, maratonei outra série, pedi Ifood de novo. 

Escrito antes da crise atual, Anzuategui mostra como esse buraco já estava sendo cavado há tempos. Mesmo quando sonhávamos com a Copa do Mundo, havia uma necessidade latente de realocação das expectativas e frustrações de um certo grupo que, apesar de ter conseguido estudar nos muitos cursos que se abriam e acompanhar com atenção a ascensão de uma nova classe média, parece ter possibilitado a invenção do termo “saúde mental” e a popularização das doenças psíquicas.

Em relação a isso, também adoro as cenas de Mercedes lidando com a família, quando vêm os conflitos geracionais. Agora que abandonou o estereótipo da mulher casada e bem-sucedida, todo mundo parece ter uma opinião sobre como se reerguer e é lógico que nenhuma delas envolve a possibilidade de descansar em dia útil. Sim, existe gente que prefere viver com menos. Não, não é desperdício de potencial. 

Ninguém precisa de Mercedes, nem hoje, nem amanhã, nem depois, então tudo bem se todos os esforços dos nossos ancestrais em aumentar a destreza manual de nossa linguagem culminar no exato momento em que ela utilizará a oposição eficiente do polegar para atualizar o feed mais uma vez.

Por enquanto, em 2014, quando tudo aperta, quando todas as responsabilidades vêm ao mesmo tempo, lá está Mercedes, criando uma fazendinha virtual, imaginando que todas as suas preocupações e aborrecimentos poderiam um dia ser assim, organizadas em fileiras e colunas, mesmo quando vêm em avalanche, mesmo quando se precipitam.

Deve ser possível - de alguma maneira misteriosa - viver em harmonia com os ritmos naturais do corpo. Trabalhar em turnos confortáveis, sem gastar as horas livres cultivando relações estratégicas.
Mas esse mistério ainda não resolvi. Até agora, a modéstia para mim foi uma ladeira. Não tem planície no meio.

sexta-feira

Compro um sorvete enquanto volto de uma entrevista de emprego desastrosa, mas acabo deixando a casquinha cair enquanto coloco fones de ouvido. Fico uns segundos olhando pro chão, descrente, cinco reais esparramados na calçada, cada vez mais líquidos. Levanto o rosto, respiro fundo e vejo um idoso me encarando. Ele oferece ajuda e ali mesmo eu choro.

andre
aguiar

é jornalista e pesquisador.