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uma conversa de felipe andré silva
com antônio xerxenesky

As Harmonias Werckmeister, um dos mais populares (dentro de seu nicho) contos de fantasia e niilismo dirigidos pelo húngaro Béla Tarr, conta a história de uma cidade interiorana e o que acontece com suas pessoas quando um circo chega trazendo uma atração inusitada: a carcaça de uma baleia. Não desencorajo a sessão mas, em resumo: todos enlouquecem, alguns encontram sua sanidade. Consigo imaginar o que é viver nesse interior limitado e gélido que László Krasznahorkai costuma propor em seus livros e subsequentes roteiros; dar de cara com uma grandeza tão sobrehumana quanto uma baleia, ainda que morta, pode ser suficiente para perder a linha de raciocínio que faz com que cérebro, coração, pulmões e outros órgãos vitais permaneçam alinhados.

Dei de cara com uma baleia animatrônica na praça de eventos de um shopping e lembrei de Béla Tarr, mas aqui as pessoas estavam menos propensas a ter suas ideias reviradas pela experiência. Ninguém parecia se sentir menor. Talvez as crianças. Talvez a imaginação seja a maneira mais efetiva de encarar qualquer questão. “Uma Tristeza Infinita”, novo livro do Antônio Xerxenesky não é, mas poderia ser um livro sobre a falta de balanço entre imaginar demais e de menos, e a área cinza onde credulidade e ceticismo se confundem.

Ambientado na Suíça do pós Segunda Guerra, o livro de Antônio segue, como o próprio comenta, a tradição direta e gélida do romance alemão. Não há mistério na regra do jogo: um idealista psiquiatra francês, fiel aos jovens preceitos da psicoterapia, se muda para o pouco habitado interior do país vizinho para exercer sua profissão numa nova e bem sucedida clínica para os “melancólicos” e outros acometidos por sofrimentos psicológicos. Através de um convite de trabalho, sua esposa passa a se interessar pelo universo aparentemente menos maleável e imaginativo da física, o que leva os dois a um embate conceitual muito instigante. Afinal, há algo em comum entre o conceito de deus, a imensidão do interior dos átomos e a esquizofrenia?

Sendo esse drama apenas uma das facetas de Nicolas, agora médico mas também sobrevivente, tanto dos alemães quanto de sua própria mente, “Uma Tristeza Infinita” consegue a proeza de trair seu próprio norte referencial para se tornar um livro surpreendentemente dinâmico em suas rotações. Paira sobre todas aquelas personagens, e em especial sobre os pacientes do centro de repouso, o fantasma gélido de uma guerra mal resolvida. Não existe mais o conflito real, mas tentar retomar uma vida dita normal é provavelmente muito mais brutal do que lidar com tiros e bombas. Naturalmente, fugir da ruína é o pensamento mais urgente, mas é possível que viver nesta casa sem teto seja melhor que não viver. Ou não.

Mais curioso ainda é como este pequeno conto construído num léxico e num tempo relativamente distante dos nossos consegue ser uma espécie de crônica sobre Brasil e mundo em 2021. Que memória resta para a Suíça e seus cidadãos, que se isentam de embates num “resguardo armado” enquanto todo o resto do mundo frustra suas possibilidades narrativas futuras explodindo bombas, atirando no rosto de crianças, se desprendendo do conceito de humanidade? O que resta para o Brasil, ou parte dele, quando observa a lenta e certeira cooptação de seus signos e a destruição sistemática de seus compatriotas em nome de um projeto de governo? Sabemos a resposta. Para Nicolas os questionamentos são somatizados, se tornam um problema de corpo e alma, muito maior do que a questão moral delicada de tratar ou não da psique de pacientes ligados ao partido nazista. Ele, assim como muitos de nós, se deixa abater pela imagem da baleia, pelo olho da baleia. Mas não é sobre isso que escreve o Xerxenesky, é sobre chegar lá, nesse estado, e possivelmente sair dele.

Aproveitei o lançamento do livro para aplacar um pouco da minha inexplicável porém inofensiva obsessão pelo autor (que chegou a render uma plaquete de poemas anos atrás), e lhe fiz algumas perguntas sobre alegria e tristeza. Aí abaixo.

Felipe André Silva: Teu maior medo ainda é a morte? Tu já investigou de onde vem essa reticência com a ideia de finitude? É medo da dor ou da inexistência?

Antônio Xerxenesky: Nada como começar light. Não diria que meu maior medo ainda seja a morte, embora esse tema se encontre onipresente em toda minha ficção; hoje, meu maior pavor é que algo de ruim aconteça com entes queridos, o que inclui, obviamente, a morte. Meu medo de morrer agora é o medo de não estar aqui para ver meu filho crescer e se tornar um adulto consciente. Gostaria de educá-lo para que ele não se torne bolsonarista. Acho que esse deve ser o dever de todo pai e mãe do Brasil de 2021, impedir que a tragédia se repita daqui a 20 anos, e para isso precisamos que a nova geração seja melhor que a nossa. Mas estou fugindo do assunto.

A morte, para mim, é a pergunta de todas as perguntas. Até porque, sem a finitude, não tem a vida. Minha ficção tenta responder, com desespero, à pergunta de como viver sabendo que a gente morre e que as pessoas próximas da gente também morrem. Todo o resto deriva daí. E essa é uma pergunta que a ciência nunca vai responder. A ciência pode explicar que somos um agrupamento de átomos e, quem sabe, no futuro, até consigam resolver a questão da consciência, como ela é produzida. Mas como vão dar conta do fato de que abri meus olhos e era um garoto nascido nesse corpo no ano de 1984, que eu preciso viver, respirar, tenho desejos e medos? Os seres humanos são produtores de sentido. A literatura / a arte é uma maneira de produzir sentido e de fazer as perguntas certas sabendo que toda resposta será inevitavelmente provisória. Só o fundamentalismo – religioso ou político – pode oferecer respostas definitivas e eu não estou interessado nelas. Minha literatura pode até parecer um pouco alienada por retornar, com insistência, à pergunta do que significa estar vivo.

FAS: Recentemente li o novo livro do Daniel Galera, e já de saída fica claro que aquele é um trabalho particularmente influenciado pela paternidade recente, e sobretudo por uma paternidade que acontece nos anos em que nós, enquanto país, estamos reféns dos detentores do poder. Ainda que não lide frontalmente, ou materialmente, com a derrocada da ideia de Brasil que todos nós vivemos na última década, o Uma Tristeza Infinita é talvez teu livro mais político, e o que mais aponta pra esse receio com as coisas que estão por vir. E aí eu queria saber um pouco do panorama geral desse processo: Onde começa a tristeza (ou melancolia), onde a tristeza vira mote pra uma história, e em que momento essa condição de pai se insere nos mecanismos da narrativa (e da vida)?

AX: É uma questão complicada, pois de modo algum quero parecer um defensor da família nuclear heteronormativa etc. etc. etc., mas a experiência de ter um filho é muito impactante e nos força a repensar nossa visão de vida. Sempre fui um pessimista amargurado e apocalíptico; tendo um filho, é impossível manter isso, pois se torna necessário imaginar uma continuidade do mundo e, por que não, um reparo do mundo. Como qualquer criatura com um mínimo de empatia e compreensão da realidade, estou deprimido com o Brasil, mas ao invés de lamuriar, preciso elaborar estratégias de ação. O meu livro trata um tanto disso: como, após a tragédia histórica, encontrar forças para continuar? Para mim, isso passa pela educação. Não só dos filhos, mas como professor. Talvez eu esteja meio Paulo Freire das ideias, mas acredito que a única saída para a nossa catástrofe é através de uma educação libertadora, e que esse cargo não fica apenas restrito aos pais e professores, mas se expande aos artistas, psicanalistas, aos médicos e advogados… 

E, nessa toada, precisamos pensar que as pessoas são capazes de melhorar. A maior parte do país apoiou um projeto de Brasil que nunca escondeu sua faceta violenta e preconceituosa. Mas não podemos acreditar que isso ficará assim eternamente. Temos que crer num potencial de arrependimento das pessoas, de repensar a própria vida, de desenvolver uma visão crítica da sociedade. Porém, nem todo mundo acorda da noite para o dia com um pensamento crítico. Isso é algo que se transmite.

Uma lembrança que volta com frequência para mim: quando eu era criança, no começo dos anos 1990, nada era mais comum do que xingar o coleguinha de “viado”. Hoje em dia, essa homofobia se tornou uma aberração que escandalizaria a maioria dos pais. O mesmo vale para casos de machismo, racismo etc. Ou seja, apesar de todos os retrocessos que estamos vendo, pouco a pouco a educação tem conseguido cristalizar alguns progressos.

O meu livro se chama “Uma tristeza infinita”, mas há algo de muito otimista no seu final que sugere uma ruptura com esse “infinito”. Uma possibilidade de futuro, apesar da tragédia histórica, e uma possibilidade de transcendência, apesar do ceticismo dominante.

FAS: Então existe algo de curativo nessa escrita? Tu acredita/vive alguma espécie de processo terapêutico quando cria? Talvez o que eu queira saber é simplesmente se tu se afeta com a criação, ou se ela é um processo muito objetivo.

AX: Eu acho que sim, é terapêutico. Bom, para mim, escrever não dá dinheiro e a reação do público é sempre imprevisível, oscilando entre um ódio muito virulento, a apatia e uns poucos que se emocionam com o texto, que sentem que algo de relevância foi comunicado. Nunca vou ser um escritor de grande público ou que vive disso. O resultado? Uma imensa liberdade. Por que vou perder tempo do meu fim de semana com família e amigos, da minha madrugada de sono, para escrever algo que não dá grana? Só vou escrever sobre o que realmente me interessa, o que realmente me toca etc. A ficção é o laboratório para fazer perguntas, para investigar o mundo e me investigar, através de uma camada difusa de espelhos e jogos de perspectiva, e um filtro chamado linguagem literária. A parte objetiva surge anteriormente, no planejamento, e depois, na reescrita. Durante o processo em si, é obsessão e loucura, com a esperança de que ao final sairei transformado. Não é tão distante de uma psicanálise, embora uma não substitua a outra, é claro. 

Tem uma anedota envolvendo Joyce que vou citar de cabeça e talvez com imprecisão. James Joyce tinha uma filha esquizofrênica, e teria perguntado a Jung de onde veio a esquizofrenia dela, se ele, o escritor, também tinha algo do distúrbio, e Jung teria respondido que enquanto Joyce conseguia nadar no mar de sua loucura, sua filha se afogava. Eu só quero nadar.

O céu é o passado. (...) Nunca sabemos quantos astros não foram assimilados, quantos sóis não se apagaram. Olhar o céu é olhar um cemitério.

uma tristeza infinita
antônio xerxenesky

companhia das letras
256 páginas

FAS: Preciso dizer que ainda estou francamente intrigado com esse livro. Desde as primeiras páginas fui tomado de assalto pelo estranhamento com o texto, que me soava técnico, sisudo, por vezes quadrado. Logo me ocorreu que estavam aí as referências, os Bernhards, os Sebalds, os Walsers e até os Manns que tua própria personagem renega, mas ainda assim fiquei curioso para saber de onde vieram essas vozes. Como se deu a escolha por esse cenário, esse período no tempo, e essas vozes tão secas e endurecidas? Quais referências, além das citadas, te sustentaram nesse processo?

AX: Houve uma escolha muito consciente pelo romance de ideias de matriz alemã – Bernhard, Sebald e sobretudo Musil e Broch. Mas também houve uma escolha pela ruptura e subversão desse gênero. Sim, concordo que o livro possui um tom sisudo e quadrado, mas de certo modo o arco narrativo espelha o de “As perguntas”, isto é, parte do ceticismo para a dúvida. Da mesma maneira, o romance de ideias alemão vai se desestruturando e se desmontando ao passo que o personagem Nicolas vai perdendo suas certezas e seu lugar no mundo. É um livro de busca por identidade, e essa busca por identidade também é literária; começa com a influência alemã e vai perdendo-a.

FAS: Talvez pela relação mais ostensiva com literatura não te enchem com esse tipo de pergunta, mas como eu sou do cinema, e sei que tu também frequenta essas paragens, me sinto obrigado a perguntar quais são algumas das tuas cenas (e só cenas, não filmes) favoritas.

AX: O ritual azul e vermelho de “De olhos bem fechados”, quando as fronteiras do sonho e da realidade se esfacelaram.
A cena mágico de Oz de “Mansão do inferno”, seguida do desfecho, no qual a bruxa se revela o maior medo dos humanos, a morte.
Valuska contemplando o Leviatã empalhado em “As Harmonias Werckmeister” e seu silêncio.
O teatro sobrenatural sendo desmascarado em “O rosto”.

FAS: Ser feliz é possível? Entenda essa como quiser.

AX: É curioso que publiquei um livro chamado “Uma tristeza infinita” em um dos momentos mais alegres de minha vida, algo que foi proporcionado por esse reator nuclear de emoções que é um filho. Mas a ideia surgiu quando eu estava esmagado no fundo do poço, às vésperas de um colapso nervoso que sofri em 2019. Sim, existem felicidades possíveis, provisórias, complexas, que envolvem esquecer por um momento o apocalipse que estamos vivenciando e abraçar uma criança correndo.

 FAS: Uma das discussões centrais do ‘Tristeza’ é o embate entre as ‘ciências duras’ e a complexidade de uma psicanálise ainda em construção enquanto área do conhecimento. Lembro que, salvo engano, originalmente o projeto apontava mais pro universo da arte, do expressionismo, então fiquei curioso para saber se teu interesse por física precede o livro ou é algo que surgiu na pesquisa, na tentativa de encontrar um caminho pro texto. E também porque tu quis propor essa disputa entre essas duas visões tão específicas.

AX: Sou um ex-aluno de Física e por muito tempo assinei embaixo de todos esses “novos iluministas”, Carl Sagan e companhia, muito sob influência de meu falecido pai, que, para mim, sempre representou a razão e o ceticismo. O embate entre ciências duras e outras formas de pensar e extrair valores veio em parte através do meu mergulho no estudo da Escola de Frankfurt e em debates incessantes com o fantasma de meu pai.

FAS: O sofrimento pra gestar um livro piora ao longo dos anos ou a relação com a ambição se torna mais tranquila/realista? E você, tá fazendo algo novo?

AX: Nunca fica mais fácil. Nunca. No máximo a gente aprende a criar uma casca grossa na pele para suportar todas as críticas super negativas e os odiadores anônimos nas redes e na Amazon. Esse foi meu aprendizado: só publicar um livro que EU gostei. Se o resto do público vai gostar, aí é com eles. Se eu estou feliz com o resultado, saberei enfrentar as respostas.

Não estou fazendo nada novo pois ainda estou com o espaço mental dedicado ao livro (por toda a função de divulgar etc.), mas estou matutando uma ideia de narrar um enredo que tem como protagonista meu tataravô paterno em um shtetl na Latvia. No entanto, não será um romance histórico ou realista, e sim um grande desvario. Boto como desafio me reinventar a cada livro, ainda que temas, obsessões e arcos se repitam.

FAS: No mais, me indica um livro?

AX: “Aviso de incêndio”, de Michael Löwy. Sou maluco pelo Löwy e por tudo o que ele escreveu. Se as circunstâncias fossem outras, rastejaria implorando para que ele me orientasse num pós-doc. De certo modo, esse livro orientou muitas das reflexões do meu romance.

felipe
andré silva

é cineasta e poeta.